Como eu escrevo! Isso aqui está lotado!

Assim, o Minha Vida de Cinéfilo atende agora neste endereço: http://minhavidadecinefilo2.zip.net/

Podem passar, que já tem post novo lá.

NOTAS SOBRE O OSCAR


Cathy Schulman e Paul Haggis, produtores (ele também diretor) de Crash - No Limite

- Numa votação pode acontecer de tudo, mas juro que quando Jack Nicholson abriu o envelope e leu Crash, por um segundo pensei que fosse uma piada do imprevisível ator. Lógico que não era, mas deveria ter sido. O filme de Paul Higgis é muito bom, de verdade, mas está longe de ser o melhor entre os cinco indicados. Na ordem, Boa Noite e Boa Sorte, Munique e o próprio O Segredo de Brokeback Mountain são superiores. E, entre os que não foram indicados a melhor filme, King Kong, O Jardineiro FielGuerra dos Mundos, também são melhores, para ficar só nos que me lembro agora. Ninguém até agora entende porque o filme chegou lá - a não ser aqueles que estavam torcendo pelo filme, que justificam dizendo apenas que ele era mesmo o melhor e pronto.

- Entre as justificativas surgidas, uma parece fazer sentido: a de que os votantes que ficaram incomodados com Brokeback Mountain, mas não quiseram se achar conservadores demais foram buscar abrigo num outro filme claramente liberal - e o acharam no conto anti-racista de Crash. Bom, parece meio rocambolesco, mas depois que Crash venceu, eu não duvido de mais nada.

- Em todo caso, é bastante significativo o fato de que Crash é o "menor" vencedor do Oscar em 29 anos. O último que foi eleito melhor filme levando só três estatuetas foi Rocky, um Lutador, na premiação de 1977. Talvez não por acaso, outra injustiça histórica. Em tempo: empataram com Crash: Brokeback Mountain, Memórias de uma Gueixa e King Kong.

- Não via uma injustiça tão grande na categoria melhor filme desde Gladiador, em 2000. E não via uma surpresa tão desconcertante desde que Roberto Benigni ganhou como melhor ator em 1999, por A Vida É Bela.

- Outra curiosidade: no ano em que aconteceu a raridade de os cinco indicados a melhor direção terem seus trabalhos indicados a melhor filme (quase sempre, há uma ou duas discrepâncias entre as listas). No caso, Crash levou o de melhor filme, e Ang Lee o de melhor direção (por O Segredo de Brokeback Mountain).

- Tirando melhor filme, o resto do Oscar foi basicamente o esperado. Philip Seymour Hoffman (ator, por Capote) e Reese Witherspoon (atriz, por Johnny & June), eram bolas cantadas desde o final do ano. George Clooney ganhou como ator coadjuvante por Syriana e isso foi legal porque ele parece ser gente boa, mas o bom mesmo é que Boa Noite e Boa Sorte tivesse levado alguma coisa (aliás, o ótimo Munique também saiu de mãos abanando). E a "nossa" Rachel Weisz também ganhou o dela, que bom.

- Ponto fraquíssimo. A Globo só começou a transmitir a cerimônia quando ela já estava avançadíssima - uma sete ou oito categorias já haviam sido entregues. Com isso, quem não viu pela TNT (eu, inclusive) perdeu algumas das melhores piadas: a procura do Oscar por um mestre de cerimônias e o clipe com as cenas "gays" dos faroestes. Eu odeio o Big Brother Brasil.

- A loucura não estava à solta no Oscar só na categoria melhor filme, não. Não esqueçamos que a vencedora como melhor canção foi o rap "It's hard out here for the pimp", de Ritmo de um Sonho. É um rap, precisa dizer mais? E pensar que essa categoria já premiou "Moon river"...

- E amanhã tem matéria no Jornal da Paraíba. Dêem uma olhada na banca, que a página de novo ficou bonita. Viu, Renatinha?

O OSCAR E EU

Ok, ok, já que vai acontecer mesmo, é melhor avisar.

Neste sábado, no JPB - Primeira Edição, ao meio-dia, este repórter será entrevistado sobre o Oscar. Se você não estiver fazendo nada na hora e prometer dar os milhões de descontos necessários...

E não esqueça de ver o Jornal da Paraíba de domingo: tem um material especial sobre o Oscar produzido com muito carinho pra ninguém ficar voando na cerimônia. Mas vê na banca porque na internet não vai ter as fotinhos, nem a beleza das páginas. Nas bancas, já no sábado à tarde.

53 ANOS

As centenas de gols importam, todos eles. As vitórias, inúmeras, também importam, lógico. Há momentos que nunca sairão da memória: os títulos nacionais de 1983 e 1987; a Libertadores e o Mundial Interclubes de 1981; as cobranças de falta que já eram, cada uma, "meio-gol" e, segundos depois, gols completos; gols como aquele de meia bicicleta contra a Nova Zelândia na Copa de 1982, aquele driblando uns cinco num amistoso contra a Iugoslávia, aquele ajeitando a bola com o lado de fora do pé e chutando, contra o Paraguai nas eliminatórias de 1985, o segundo da decisão da Libertadores, de falta, contra o Cobreloa...

Mas tão importante quanto é a alegria de ter um ídolo que sempre foi sobretudo ético e correto, um atleta de primeira, um profissional dedicado - alguém de quem se orgulha. Os espíritos-de-porco vão logo lembrar aquele pênalti perdido na Copa de 1986. Pois quem cobra isso dele não merecia mesmo ganhar aquela Copa ou qualquer Copa. Ele nunca ter ganho uma Copa do Mundo é, sobretudo, uma prova de que pode não haver justiça no mundo, afinal.

Um grande ser humano, sobretudo. Alguém em que se espelhar. Não é tpdo ídolo que pode se gabar disso.

Parabéns, Galinho! Eu e milhões seremos sempre seus devedores.

CEM PREFERIDOS - 6


6. Luzes da Cidade (Charles Chaplin, 1931)

Carlitos, sem eira nem beira, se apaixona por uma pobre florista cega. Um milionário entra em sua limusine, ao lado, e bate a porta. Pronto: com essa gag, que Chaplin demorou meses para criar, ela pensa que Carlitos, que sai de fininho, é o milionário. E ele vai tentar de todas as formas conseguir dinheiro para pagar uma operação que devolverá a visão à moça, se metendo em uma confusão atrás da outra. É engraçadíssimo, claro, mas também é um dos filmes mais românticos já feitos - o final, inclusive, é sériíssimo concorrente ao melhor de todos, em qualquer tempo. Ainda há o milionário que é amigo do vagabundo quando está bêbado, mas não o reconhece quando está sóbrio. Uma sucessão de genialidades que mostram que Chaplin não precisava de um grande tema para criar uma obra-prima - ou, melhor, que uma bela história de amor já é um grande tema.

DVD/ O MÁGICO DE OZ
The Wizard of Oz The Wizard of Oz 

Recontando a filmagem de um grande clássico
Edição tripla de O Mágico de Oz traz documentários, comentários em áudio e uma série de extras que dão informações preciosas de como foi feito o filme

Renato Félix

Não há lugar como a nossa casa e não há outro filme como O Mágico de Oz (1939), ainda mais brilhante e reluzente que costumava ser, no lançamento da nova edição em DVD. Os três discos trazem uma série de extras que ajudam a conhecer melhor a história do filme que transformou Judy Garland em estrela, foi o primeiro a ser exibido na TV (nos Estados Unidos), e ainda é um dos pilares do jeito hollywoodiano de fazer cinema.

O documentário O Maravilhoso Mágico de Oz - O Making Of de um Clássico do Cinema faz um bom retorno à época das filmagens, recontando os fatos (e lendas) a respeito do filme. Fala, por exemplo, sobre as mudanças na direção (toda a seqüência no Kansas e a despedida da terra dos Munchkins, em Oz, foram filmados ainda por King Vidor, antes que Victor Fleming assumisse o posto), e sobre a escolha da atriz para o papel de Dorothy: de como a Metro queria porque queria Shirley Temple, mas acabaram escolhendo a ascedente estrelinha Judy. E mesmo assim, ainda puseram nela uma peruca loira, sabiamente dispensada pelo diretor George Cukor, que ficou três dias à frente do filme.

De como Homem de Lata no filme também foi uma segunda escolha (o primeiro ator teve uma reação alérgica à maquiagem) e de como a canção “Over the rainbow”, escolhida em 2004 pelo American Film Institute como a melhor do cinema americano, quase ficou de fora do filme, porque os produtores a acharam “monótona”.

A série de extras são apresentados pela atriz Angela Lansbury. Há segmentos especiais sobre a restauração do filme, que surge numa cópia que tenta reproduzir fielmente o Techinocolor, e outro sobre a estréia do filme na televisão, mas há também muitas imagens de arquivo da época.

Os mais interessantes são, claro, as cenas excluídas, com uma versão estendida de “If I had a brain”, a música cantada pelo Espantalho (Ray Bolger). Há também uma canção cortada (“Jitterbug”), apresentada com uma cena da filmagem captada nos bastidores, vídeos caseiros do compositor Harold Arlen, os testes de maquiagem e do furacão que leva a casa de Dorothy ao mundo de Oz.

O filme tem comentários em áudio de John Fricke, biógrafo de Judy Garland, e o terceiro disco é dedicado a L. Frank Baum, autor da série de livros originais sobre Oz. Empreendedor fracassado, só quando se tornou escritor e publicou seu conto de fadas teve sucesso (há até um filme para a TV sobre ele, Sonhos de Oz, 1990). O Homem por Trás da Cortina é o documentário que conta essa história.

Ainda no terceiro disco, várias versões em curta-metragem, mudos e sonoros, sobre o mundo de Oz - alguns são mesmo outras versões de O Mágico de Oz.

Mas o grande atrativo da caixa é o próprio filme. Cada cena é clássica: a fuga de casa; o ciclone; a terra dos Munchkins; a morte da bruxa má do leste; a caminhada pela estrada de tijolos amarelos, na tentativa de voltar para casa; os encontros com o Espantalho, o Homem de Lata e o Leão covarde; a chegada à Cidade Esmeralda; a audiência com o Mágico de Oz; o rapto de Dorothy...

Além de frases que ecoam até hoje: “Totó, acho que não estamos mais no Kansas”; “Estou derretendo!”; “Não há lugar como a nossa casa” . E não há outro filme como O Mágico de Oz.

O Mágico de Oz. The Wizard of Oz. Estados Unidos, 1939.  *****  Direção: Victor Fleming. Elenco: Judy Garland, Ray Bolger, Bert Lahr, Jack Haley, Frank Morgan, Margaret Hamilton, Billie Burke.

*Publicado sábado, no Jornal da Paraíba

ESTRÉIA HOJE EM JP/ O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN
Brokeback Mountain Brokeback Mountain 

A polêmica como favorita ao Oscar
O Segredo de Brokeback Mountain estréia hoje em JP, trazendo no currículo uma série de prêmios internacionais e a dianteira na corrida pela estatueta

Renato Félix

A polêmica acompanha O Segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain, Estados Unidos, 2005) desde o início. Nem tanto por ser um filme direto e claro sobre um romance homossexual, mas principalmente por colocar isso num contexto quase sagrado ao cinema americano: o western. O filme de Ang Lee estréia hoje – duas salas em João Pessoa – nove dias antes do que deve ser a sua consagração final: a cerimônia do Oscar, em Los Angeles.

O filme está indicado em oito categorias: filme, direção (Lee), ator (Heath Ledger), ator coadjuvante (Jake Gyllenhall), atriz coadjuvante (Michelle Williams), roteiro adaptado, fotografia e trilha sonora original. É favoritíssimo para melhor filme, ganhando tudo o que há para ganhar na temporada pré-Oscar – incluindo o Globo de Ouro/drama, o prêmio do Círculo dos Críticos de Nova York e, até onde não era o favorito, no Bafta (da Academia Britânica). O que leva a crer que não é só a polêmica que tem sido a mola propulsora da notoriedade do filme.

Brokeback Mountain mostra dois pastores de ovelhas isolados do mundo nas montanhas do Wyoming, que acabam se apaixonando e passam os anos seguintes em idas e vindas tentando escapar desse sentimento que não compreendem. O filme começa em 1963 e, talvez por isso, nem se pode dizer que é exatamente um western. Mas a semelhança já foi o suficiente para fazer barulho e até para que surgissem teses defendendo que o subtexto homossexual no gênero sempre existiu.

O tema não é novidade para Ang Lee. Um de seus primeiros filmes de repercussão internacional, quando ainda filmava em Taiwan, foi O Banquete de Casamento, história de um chinês que mora nos Estados Unidos com um americano e tem de encontrar uma noiva de encomenda para esconder seu romance gay dos pais, que estão chegando para visitá-lo. É uma comédia, sem ridicularizar os homossexuais.

E é um ótimo filme, comentário que O Segredo de Brokeback Mountain também tem recebido. Depois do problemático Hulk (que não é um filme nada ruim, diga-se), ele voltou-se para um projeto pra lá de intimista e pode ser o primeiro oriental a levantar o Oscar de melhor direção. Os atores também estão bem cotados, embora não sejam os favoritos. E isso para um filme que estreou timidamente, em meras 70 salas, pulando em um mês para 600, e chegando a 1.966 salas na semana passada, dois meses depois da estréia.

O sucesso de público e no Oscar pode estar sinalizando uma tolerância maior em Hollywood para temas polêmicos como esse? Alguém já disse que Hollywood não discrimanava os homossexuais – ao contrário, os tratava muito bem, na intimidade. Mas o público discriminava e a indústria não era boba de ir contra o público. Como será depois da ascensão de uma história gay ao posto de melhor filme do ano?

O Segredo de Brokeback MountainBrokeback Mountain. Estados Unidos, 2005. Direção: Ang Lee. Elenco: Heath Ledger, Jake Gyllenhaal, Randy Quaid, Anne Hathaway, Michelle Williams, Anna Faris, Linda Cardellini.

*Publicado hoje, no Jornal da Paraíba

ESTRÉIA HOJE EM JP/ MEMÓRIAS DE UMA GUEIXA
Memoirs of a Geisha Memoirs of a Geisha 

Beleza visual dá o tom em história japonesa
Memórias de uma Gueixa, indicado a seis Oscars, estreía hoje em João Pessoa, com figurino e cenários requintados, mas a crpitica achou que faltou conteúdo

Renato Félix

Memórias de uma Gueixa (Memoirs of a Geisha, Estados Unidos, 2005), que estréia hoje - duas salas em João Pessoa - é uma vítima da já clássica falta de visão dos americanos sobre o mundo que começa além de suas fronteiras: mexeu em um vespeiro daqueles ao escalar atrizes chinesas para viver símbolos da cultura japonesa e praticamente causou um incidente diplomático.

Chineses e japoneses têm sérias rusgas desde os anos 1930, por causa das atrocidades cometidas pelos japoneses enquanto o país ocupou a China. Seriam as gueixas prostitutas? Para os chineses, sim, e isso explicaria o sentimento de ofensa por ver chinesas no papel. Por outro lado, fora o sentimento de não ter atrizes nacionais escolhidas para o papel, os japoneses acusam Memórias de uma Gueixa de dar uma visão americanizada demais das tradições nipônicas, amenizando-as.

Sob o tiroteio, a crítica acusou o filme de ter muita forma e pouco conteúdo. O Oscar parece ter concordado: o filme concorre a seis estatuetas, mas nenhuma das principais, ficando relegada aos prêmios técnicos. Concorre em fotografia, trilha sonora original, direção de arte, som e edição de som.

A história é baseada no livro de Arthur Golden, que através de viagens e estudos, escreveu um romance com relatos também históricos sobre a cultura nipônica. A trama segue a vida de uma menina japonesa que - mistérios da genética - nasceu com olhos azuis. Os pais a vendem para que se torne uma gueixa - e aí começa o calvário de Chiyo. Sua beleza causa a inveja da gueixa mais poderosa do local, Hatsumomo (a chinesa Gong Li) e acaba virando serviçal. Só quando Chiyo é acolhida pela maior rival de Hatsumomo, Mameha (a tailandesa Michelle Yeoh), ela é treinada e vira Sayuri (Zhang Ziyi), que se tornou uma conhecida cortesã do Japão pré-Segunda Guerra.

O diretor é Rob Marshall, que fez um trabalho muito bom no musical Chicago (2003), com o qual ganhou os Oscars de filme e direção. A ambição, aqui, segundo as críticas, esbarrou numa preocupação muito grande com o visual e pouco com a história em si. Marshall também se esmerou em ter atores orientais no elenco, para dar veracidade ao filme, o que foi uma atitude corajosa. Mas cometeu esse erro de cálculo ao procurar garantir o interesse com aqueles nomes que já são conhecidos no Ocidente.

Zhang Ziyi já é figurinha carimbada em filmes chineses que fazem sucesso aqui (de O Tigre e o Dragão, 2000, aos filmes recentes de Zhang Yimou, como O Clã das Adagas Voadoras, 2004). Michelle Yeoh também esteve em O Tigre e o Dragão e, antes, foi bondgirl em 007 - O Amanhã Nunca Morre (1997). Gong Li é uma das atrizes chinesas mais celebradas desde Lanternas Vermelhas (1991).

Há um ator japonês com destaque no elenco, mas porque também já é conhecido por esse lado do mundo: Ken Watanabe, que foi indicado ao Oscar por O Último Samurai (2003) e esteve também em Batman Begins (2005). Uma área de escape que, no fim, resultou em mais problemas que soluções - mas parece que não são os únicos do filme.

Memórias de uma GueixaMemoirs of a Geisha. Estados Unidos, 2005. Direção: Rob Marshall. Elenco: Zhang Ziyi, Ken Watanabe, Kôji Yakusho, Michelle Yeoh, Kaori Momoi, Gong Li, Kenneth Tsang.

*Publicado hoje, no Jornal da Paraíba

ESTRÉIA HOJE EM JP/ CRASH - NO LIMITE
Crash Crash 

‘Crash’ traça painel sobre Los Angeles

Renato Félix

Existem aqueles filmes que são grandes painéis: várias histórias praticamente independentes, mas interligadas por detalhes às vezes importantes, às vezes banais. Através disso, o filme tenta montar uma grande cena de uma sociedade localizada. Assim é Short Cuts - Cenas da Vida (1993), de Robert Altman, assim é Magnólia (1999), de Paul Thomas Anderson, assim é Traffic (2000), de Steven Soderbergh. E assim é Crash - No Limite (Crash, Estados Unidos/ Alemanha, 2004), de Paul Haggis, que estréia hoje em João Pessoa - uma sala.

Haggis é o roteirista indicado ao Oscar por Menina de Ouro (2004), mas que fez carreira mesmo na televisão - principalmente com roteiro e direção em episódios do seriado Family Law. Crash é seu filme de estréia e já bastante ambicioso: o painel traçado é sobre os conflitos inter-raciais e interculturais na Los Angeles dos dias de hoje. O filme está indicado a seis Oscars: filme, direção, ator coadjuvante (Matt Dillon), roteiro original, montagem e canção original (“In the deep”).

Dillon recebe sua primeira indicação pelo papel de um policial corrupto e racista. Ele cruza com outros como um promotor público e sua esposa, um lojista persa, um casal de detetives da polícia, ladrões de carro, um casal coreano de meia-idade... E a história se passa em dois dias, onde as tramas se cruzarão.

O elenco tem vários nomes conhecidos, sem grande protagonismo para nenhum, o que uma característica dos painéis. Estão lá desde astros sumidos, como Sandra Bullock e Brendan Fraser (é ele mesmo, que estrelou filmes como De Volta para o Presente), até queridinhos do cinema independente, como Don Cheadle (figurinha fácil nos filmes de Steven Soderbergh e indicado ao Oscar por Hotel Ruanda), chegando a atores que ainda buscam lugar ao sol, como Jennifer Esposito (que está nesse pé, depois de filmes B e do fiasco de Táxi). Não deixa de ser, também, um painel.

Crash - No Limite. Crash. Estados Unidos/ Alemanha, 2004. Direção: Paul Haggis. Elenco: Sanda Bullock, Don Cheadle, Matt Dillon, Jennifer Esposito, William Fichtner, Brendan Fraser, Thandie Newton, Ryan Phillippe.

*Publicado hoje, no Jornal da Paraíba

CRÍTICA/ OLIVER TWIST

Oliver Twist Oliver Twist

Roman Polanski faz filme-tributo ao escritor inglês Charles Dickens

Renato Félix

A principal marca do cineasta Roman Polanski é não ter exatamente uma “marca”. Seus filmes são tão diferentes uns dos outros que é difícil reconhecer os elementos de um “autor”, como gostam os franceses, em sua obra. A não ser, é claro, a exímia capacidade de narrar bem uma história, qualquer que seja ela. Pode ser uma história de piratas, um filme de suspense/horror claustrofóbico, um drama político ou um conto dickensiano como o Oliver Twist (Oliver Twist, Inglaterra/República Checa/ rança/Itália, 2005) que segue em cartaz esta semana.

A história do órfão que acaba acolhido por um grupo de ladrões de rua, chefiados por um velhote ganancioso chamado Fagin, é contada com uma servidão admirável à história de Charles Dickens. Não há vôos narrativos em excesso, movimentos de câmara ousados, grandes cenas para tirar o fôlego. Há a história, embalada em uma reconstituição de época cuidadosa, suportada por bons atores mirins e por um grande ator: Ben Kingsley, quase irreconhecível como Fagin.

O sofrimento infantil em Dickens não é eufemismo. Só como comparação, Harry Potter, no máximo, levava umas broncas dos tios e dormia num quartinho embaixo da escada. Oliver Twist comia restos num orfanato, apanhava, foi vendido como um objeto qualquer, trancado num depósito de carvão... E isso é só o começo.

A história também difere muito das aventuras infanto-juvenis da atualidade, porque a criança não tem o controle das ações - ela está sempre à mercê dos adultos, maiores e mais fortes, numa sociedade em que a opressão adulto-criança e homem-mulher quase não tinha alternativa. Polanski mostrou coragem ao não sucumbir à receita atual e transformar Oliver no herói que resolve seus próprios problemas. O garoto é, sobretudo, uma vítima, procurando um lugar mínimo que seja ao sol.

Nisso, o diretor não esconde a ternura pelo personagem, que passa por provações e mais provações físicas e morais até chegar ao momento decisivo do filme, em que seu destino será decidido de vez.

Surpreendentemente, tenta inspirar compaixão também por Fagin, vilão por excelência, mas com nuances garimpadas por Kingsley na busca por torná-lo mais humano. Não é fácil, afinal trata-se de um aproveitador que põe crianças no mundo do crime. Mas chega perto.

Oliver Twist. Oliver Twist. Inglaterra/ República Tcheca/ França/ Itália, 2005.  ****  Direção: Roman Polanski. Elenco: Barney Clark, Ben Kingsley, Leanne Rowe, Mark Strong, Jamie Foreman.

*Publicado hoje, no Jornal da Paraíba

CEM PREFERIDOS - 7


7. Quanto Mais Quente Melhor (Billy Wilder, 1959)

Ninguém é perfeito. Marilyn Monroe não é perfeita. Jack Lemmon não é perfeito. Tony Curtis não é perfeito. Billy Wilder não é perfeito. Mas eles, juntos, fizeram um filme perfeito: Quanto Mais Quente Melhor, a genial comédia sobre gângsters, mentiras e travestismo. O roteiro não tem preço: Curtis e Lemmon são Joe e Jerry, músicos pés-rapados que flagram uma execução da máfia; para fugir, se vestem de mulheres (Josephine e Geraldine - pu melhor, Daphne) e integram uma banda feminina que está seguindo rumo à Flórida; como nada nessa vida é fácil, também integra a banda a escultural Sugar Kane (Marilyn Monroe). Ela vai tentá-los a fazer o impossível: conquistá-la, mesmo sob disfarce. Mas Daphne também atrai as atenções de um velho rico - e incansável na paquera. Os quiproquós vão aumentando cada vez mais, numa sucessão de grandes piadas, grandes cenas e grandes performances de todos os atores. Curtis e Lemmon fazem às vezes de Dean Martin-Jerry Lewis, só que mais cerebrais. E Marilyn... Bem, Marilyn foi definida com perfeição por Wilder: trabalhar com ela era um inferno, porque ela se atrasava, não decorava as falas, tinha que repetir as cenas... Mas valia a pena, porque quando a imagem era projetada, é a luz que se vê cada vez que ela surge em Quanto Mais Quente Melhor.

CEM PREFERIDOS - 8


8. A Noviça Rebelde (Robert Wise, 1965)

Dizer que a música pode mudar a vida das pessoas talvez seja muito otimismo. Mas a verdade é que foi através dela que a família Von Trapp conseguiu fugir do nazismo, quando os alemães anexaram a Áustria: eles montaram um grupo musical, e a história é real. Logo, se a própria vida pode ter esses lances de otimismo explícito, por que não um filme? A Noviça Rebelde é muito ancorado no carisma impressionante de Julie Andrews, mas tem muito mais do que isso. A fotografia é esplêndida, não só por causa das cores vivas das locações em Salzburg, mas pelos enquadramentos detalhistas, simétricos, quase uma pintura em cada fotograma, num trabalho simplesmente perfeito do diretor Robert Wise. A história é um encanto, com a noviça hiperativa que é enviada para cuidar dos sete filhos traquinas de um capitão reformado da marinha - que os trata como se fossem a tripulação de seu navio. Ela chega e revoluciona a rotina da casa. As canções, então, impecáveis: "The sound of music", "I have confidence in me", "Sixteen goin on seventeen", "My favorite things", "Do-re-mi", "Something good"... Para guardar no coração.

RETOMADA
Vamos lá, terminar essa lista de cem preferidos?
ESTRÉIA HOJE EM JP/ "A PANTERA COR-DE-ROSA"
The Pink Panther The Pink Panther 

Mais uma volta para A Pantera Cor-de-Rosa
Estréia do filme com Steve Martin dá nova partida à série dirigida originalmente por Blake Edwards, com mudanças, mas o mesmo tema musical e a abertura animada

Renato Félix

A musiquinha, todo mundo conhece. Composta por Henry Mancini, tornou-se uma marca poderosa que não poderia deixar de estar de volta na nova versão de A Pantera Cor-de-Rosa (The Pink Panther, Estados Unidos, 2006), que estréia hoje no País - três salas em João Pessoa e uma em Campina Grande. O atrapalhado inspetor Clouseau, imortalizado em seis filmes com Peter Sellers, agora é interpretado por Steve Martin, brilhante ator cômico, mas que tem altos e baixos no cinema. O estilo é o mesmo: a falta de jeito de Clouseau para com qualquer coisa é uma ameaça para tudo e todos à sua volta.

O novo filme tem o mesmo nome do original, de 1963 - em que, aliás, Clouseau nem era o personagem principal, mas um coadjuvante que fez tanto sucesso que passou a estrelar os filmes seguintes - mas as histórias são totalmente diferentes. No clássico, uma princesa indiana recebe do pai o diamante pantera cor-de-rosa, roubado durante uma visita à França por um famoso ladrão, o “fantasma”. Clouseau é o policial encarregado do caso, sem saber que o ladrão estava mais perto do que parecia: era o amante de sua esposa. Peter Sellers estava num elenco cheio de astros como David Niven, Claudia Cardinale e Capucine.

O novo filme mostra o início da “ascensão” de Clouseau. No caso, o roubo do diamante está associado ao assassinato de um famoso treinador de futebol (Jason Statham). O inspetor-chefe Dreyfuss (Kevin Kline), da polícia de Paris, recruta Jacques Clouseau, de uma cidadezinha do interior para liderar a investigação. O plano é que Clouseau seja, na verdade, uma distração para a real investigação, ganhando um assistente (Jean Reno).

Dreyfuss e Clouseau tiveram um dos relacionamentos patrão-empregado mais turbulentos do cinema - não que Clouseau tenha percebido isso, claro. O inspetor-chefe (interpretado por Herbert Lom nos filmes originais, dirigidos por Blake Edwards) chegou mesmo a enlouquecer e virar o vilão de um dos filmes, A Nova Transa da Pantera Cor-de-Rosa (1976).

Se a nova versão de A Pantera Cor-de-Rosa, dirigida por Shawn Levy (que dirigiu Steve Martin nos dois Doze É Demais), vai emplacar uma nova série, ainda não se sabe, mas o filme estreou semana passada nos Estados Unidos, liderando as bilheterias de lá, com US$ 21,7 milhões no primeiro fim de semana.

A série original começou com A Pantera Cor-de-Rosa e seguiu com Um Tiro no Escuro (1964), Inspetor Clouseau (1968, sem Edwards na direção e com Alan Arkin no lugar de Sellers), A Volta da Pantera Cor-de-Rosa (1975, com as voltas do diretor e ator originais), A Nova Transa da Pantera Cor-de-Rosa, A Vingança da Pantera Cor-de-Rosa (1978), A Trilha da Pantera Cor-de-Rosa (1982, feito depois da morte de Sellers, usando imagens não utilizadas em outros filmes), A Maldição da Pantera Cor-de-Rosa (1983, com a tentativa de emplacar outro personagem como protagonista) e O Filho da Pantera Cor-de-Rosa (1993, com Roberto Benigni como o filho do inspetor).

Em quase todos eles, os créditos de abertura contam com a panterinha de desenho animado, que acabou ganhando até uma série animada própria, depois do sucesso que fez no filme original. O esguio felino roubou a cena e virou uma marca tão grande quanto a partitura de Henry Mancini (que, aliás, também permanece, na releitura de Christophe Beck.

Quem também está no filme é a cantora e atriz Beyoncé Knowles, que faz a sexy esposa do treinador morto. Para Steve Martin, que co-escreveu o roteiro com Len Blum, o filme é uma oportunidade de emplacar um sucesso, enquanto o drama inspirado em seu livro A Balconista - que por aqui vai se chamar A Garota da Vitrine, com ele e Claire Danes, não estréia.

A Pantera Cor-de-Rosa. The Pink Panther. Estados Unidos, 2006. Direção: Shawn Levy. Elenco: Steve Martin, Kevin Kline, Beyoncé Knowles, Jean Reno, Emily Mortimer, Henry Czerny, Jason Statham.

ESTRÉIA HOJE EM JP/ "OLIVER TWIST"

Oliver Twist Oliver Twist

Polanski dá sua versão para obra de Dickens
Oliver Twist estréia hoje em João Pessoa, recontando um dos grandes romances do autor inglês, que tem paralelos com a própria infância do diretor

Renato Félix

Quando David W. Griffith, lá no longínqüo começo do século passado, inventou a linguagem do cinema, ele disse que a inspiração para uma narrativa de se contar uma história na tela foi Charles Dickens. Ou seja: o autor britânico inspirou os closes, as mudanças de perspectiva dentro de uma mesma cena, o foco dramático sobre um certo detalhe. Claro, depois o cinema se inspirou ainda mais diretamente nele, adaptando seus romances mais conhecidos. Oliver Twist (Oliver Twist, Inglaterra/República Checa/França/Itália, 2005) estréia hoje - uma sala em João Pessoa - em uma nova versão, dirigida por um dos monstros sagrados do cinema contemporâneo: Roman Polanski.

Foram várias as versões anteriores de Oliver Twist no cinema. As mais conhecidas são a de David Lean, de 1948 (com Alec Guiness no papel de Fagin), o musical de Carol Reed de 1968 (Oliver!, vencedor do Oscar de melhor filme) e o longa de animação da Disney, de 1988 (Oliver e Seus Companheiros, que é considerado bem aquém da média de qualidade do estúdio do Mickey). Polanski resolveu dar sua visão da história, certamente porque ela diz muito sobre a vida do próprio diretor.

O diretor declarou que o motivo era fazer um filme para seus filhos. Embora seja fã de Dickens, é inegável que a história remete aos dias felizes de sua própria infância, quando sofreu as agruras do nazismo. Mas também porque pode ser uma metáfora para as crianças em perigo no terceiro mundo, hoje.

A história começou a ser publicada em 1837, em capítulos, na publicação mensal Bentley’s Miscellany - tendo em vista um corte nos benefícios governamentais para crianças pobres de Londres. Oliver Twist (Barney Clark, 12 anos) é um órfão que, tentando sobreviver nas ruas de Londres, é acolhido por Fagin (Ben Kingley), que comanda uma espécie de orfanato onde treina os garotos para roubarem nas ruas da capital inglesa.

Aliás, Fagin é um personagem que anda mais no centro das atenções do que Oliver Twist. Recentemente, o último álbum do genial quadrinista Will Eisner tocou no assunto: em Fagin, o Judeu, o personagem confronta o próprio autor, Dickens. A versão de 1948, logo após o fim da Segunda Guerra e da descoberta dos horrores do Holocausto, causou polêmica ao manter o personagem como judeu.

Não é citado que Fagin é judeu no filme de Polanski. Em todo caso, como no álbum de Will Eisner, o filme procura uma “humanização” de um dos mais detestáveis vilões já criados. Para Eisner, Fagin foi um produto da miséria do submundo londrino daqueles tempos.

Dickens já teve outras adaptações memoráveis para o cinema. O próprio David Lean, quando lançou o seu Oliver Twist, já tinha filmado Grandes Esperanças (1946). A Canção de Natal - com o avarento Ebenezer Scrooge, que muda de vida depois de visitado pelos fantasmas nos Natais Passados, Presente e Futuros - é a história natalina mais conhecida do mundo e virou musical em Adorável Avarento (1970) e um desenho em média-metragem da Disney, estrelado pelo Tio Patinhas, em 1983. Além da versão atualizada de Os Fantasmas Contra-Atacam (1988). Grandes Esperanças também teve uma versão atualizada recente, em 1998.

Polanski preferiu manter a ação na Inglaterra do século 19. Com Oliver Twist, ele mantém uma marca impressionante de ecletismo com relação aos filmes que faz. Sua carreira é repleta de obras absolutamente diferentes entre si, indo da comédia pastelão (em A Dança dos Vampiros, 1967) ao drama político (A Morte e a Donzela, 1995), do suspense hitchcockiano (Busca Frenética, 1988) ao drama erótico (Lua de Fel, 1992), do filme noir (Chinatown, 1974) ao drama de guerra (O Pianista, 2003, com o qual ganhou o Oscar de melhor diretor). Agora trilha pelo caminho de uma história de crianças - mas não aventuras inconseqüentes, e sim também nas tintas dramáticas.

Oliver Twist. Oliver Twist. Inglaterra/ República Tcheca/ França/ Itália, 2005. Direção: Roman Polanski. Elenco: Barney Clark, Ben Kingsley, Leanne Rowe, Mark Strong, Jamie Foreman.

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