DE FRENTE PARA AS CÂMERAS
Falar em público sempre foi um horror pessoal. Sempre tremi nas bases para apresentar qualquer seminário, gaguejo, me perco nas idéias, faço mil "hããããs", é um desastre. Se for no rádio, pior ainda: minha voz fica horrível em qualquer tipo de gravação. E se for na tevê, então, quando entra a imagem... Já apareci em umas duas ou três matérias e sempre achei que não conseguia concatenar as idéias como deveria com aquela câmera na minha cara.

Aí, chega Sílvio Osías, chefe de redação da TV Cabo Branco (afiliada da Globo em João Pessoa) e me comunica esta semana:

- Renato, já que o Oscar vai ser exibido na Globo, vamos fazer um matéria e você vai ser o entrevistado. E nem pode dizer "não", vamos só marcar o dia de gravar o VT.

Entre lisonjeado, amendrotado e divertido pela autoridade fingida do amigo, agradeci. Depois, a coisa foi só piorando:

- Renato, vamos conversar ali.

Sílvio me chamou para o "beco das conversas reservadas" no corredor da empresa e disse:

- A gente resolveu que você vai estar na bancada, ao vivo. A gente vai trazer também a Marcélia Cartaxo para uma entrevista e depois puxamos para o Oscar.

Ahã? Ao vivo? Se podendo repetir eu já engasgo e me perco! Mas eu não disse nada, eu só disse:

- Tudo bem, falou, Sílvio.

Um dia antes da entrevista (ou seja, ontem). Sílvio de novo:

- Renato, a gente não vai mais trazer a Marcélia. Vamos fazer a entrevista só com você.

- Só o bloco final, ou nos três blocos?

- Nos três blocos.

Eu, a timidez em pessoa, sendo entrevistado por Edilane Araújo em participações nos três blocos do JPB - 1ª Edição! O telejornal mais visto do estado (depois da segunda edição, que é à noite). E eu lá, tendo três chances de passar uma vergonha federal. Mas, claro, que eu não iria recusar. Afinal, a gente não ganha a luta que a gente abandona. Topei.

Parêntese: acho que há uns dois anos, Hildeberto Barbosa Filho, meu ex-professor da época do curso de Jornalismo, me convidou para uma participaçção na aula dele de Introdução à Comunicação, para falar sobre quadrinhos. Eu, falando para estudantes universitários totalmente estranhos à minha pessoa. E se eles não gostassem do que eu iria falar e pulassem em cima de mim e me espancassem? Ou, pior, se rissem?!

Preparei uns tópicos, separei uns gibis em casa e fui lá, falar da linguagem das HQs. Não sei quando foi que eu pensei nisso, mas o fato é que usei uma estratégia para quebrar o gelo e a situação professor-aluno que a coisa deixava passar. Fiz os alinos falarem primeiro do que eu.

- Primeiro, quem aqui lê quadrinhos?

As mãos foram levantando e eu fui perguntando, usando todo o talento de jornalista entrevistador que eu consegui catar dentro de mim na hora. "Ah é? E você lê o quê?"; "Ah, eu também gosto disso"; "Eu cresci lendo Turma da Mônica e tal". Além de tomar um tempo razoável, transformou tudo numa conversa mais ou menos informal e a coisa fluiu bem melhor.

Quando fui convidado para ministrar um curso sobre cinema, o medo estava lá comigo. Mas me lembrei da turma de Hildeberto e usei a mesma tática. Todo mundo se apresentou, falou por que estava ali, do que gostava nos filmes e tal. Depois, o curso passou a ser um bate-papo entre amigos. Fecha parênteses.

Como Edilane é uma colega muito divertida na empresa, isso ajudou muito. Tornou o clima exatamente esse: um bate-papo. Não o tempo todo, mas em vários momentos durante o jornal minhas pernas tremeram e um frio subiu pela minha espinha (ainda bem que sempre foi na hora de outras matérias). Estava preocupado em não gaguejar, não devaneiar ("devanear"?), não falar demais, não falar de menos ("Televisão é tempo, tempo!", pensei muito essa semana), não responder perguntas que ainda seriam feitas (Edilane me ameaçou de dar um beliscão por baixo da mesa, se eu fizesse isso).

Mas cheguei à conclusão que uma atitude simples, poria tudo isso sob controle: concentração e responder estritamente o que foi perguntado. Quando vinha o aviso de "dez segundos", eu já me punha a postos e fomos em frente. Tinha visto as perguntas antes, mas a primeira, muito geral, acabou me atrapalhando um pouco. Depois, a coisa foi melhorando e acho que tudo correu muito bem, tendo em vista o desastre que isso poderia ter sido.

Pelo menos o pessoal aqui da TV, do jornal e os amigos que me ligaram logo depois gostaram. Ufa!
AND THE WINNER IS...

Amanhã (domingo), o Jornal da Paraíba traz um quem é quem do Oscar deste ano, com todos os indicados das principais categorias. São duas páginas no caderno Vida e Arte. Cortesia do seu amigo da vizinhança.

Não sei como é que vai ficar na internet, mas no papel ficou bonitinho...

RAZZIES

O Oscar é amanhã e tal. Mas hoje já serão entregues os Razzies (também conhecidos por aqui como Framboesas de Ouro), para os piores filmes do ano passado. Os cinco indicados a pior filme são:

Alexandre;
Mulher-Gato;
Superbabies - Baby Geniuses 2;
Sobrevivendo ao Natal; e
As Branquelas

Quem quiser conferir os outros indicados (por exemplo, George W. Bush, indicado a pior ator por Fahrenheit 11 de Setembro), é só ir no Omelete. Injustiça do ano: como assim Van Helsing não está entre os finalistas?

CENAS DE UMA REDAÇÃO

- Batam palmas baixo, que o ministro que vai ser entrevistado já chegou - sussurra a editora-chefe, reunida com todo mundo na cantina do jornal para o aniversário de umas das fotógrafas.

- Eu nunca votaria em Em Busca da Terra do Nunca para o Oscar. Daqui a pouco vão premiar o Mickey e o Pateta - do editro de esportes, se referindo ao filme sobre o autor de Peter Pan.

ACONTECE HOJE

Uma pessoinha que eu amo muito está fazendo aniversário hoje:

 

Minha sobrinha, Isabeli, a nova cinefilazinha da família, está completando três anos... A festinha é só domingo, mas tanto faz porque meu amor é todo dia, mesmo...

Outra pessoinha que eu amo muito está indo pra longe, longe:

 

Magali (ou Sheila, para a maioria), minha irmã de coração, viaja hoje para a Holanda, e vai passar pelo menos alguns meses por lá. Toda a sorte do mundo para ela e que a estadia além-mar traga sucesso, felicidade e alegrias. Por aqui, a saudade me fará companhia. De novo.

NA TEVÊ

Está confirmado: vou estar na bancada do JPB - 1ª Edição (para quem é de fora: o jornal local da afiliada Globo em João Pessoa) para comentar os indicados ao Oscar. Ao vivo (frio na espinha). Depois gravo um VT que vai ao ar junto com a reprise da matéria na edição da noite.

Assistam. Ou o seu amigo crítico vai ganhar um salto de popularidade ou vai ser um dos maiores micos da paróquia (risos)...

UTILIDADES METAFÓRICAS DE "O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA"

Prezados amantes do tabuleiro. Certamente, lembram desse belo e encantador filme de 1974 intitulado O Massacre da Serra Elétrica? Nela, uma linda família de psicopatas assassinos, amantes da gastronomia canibal, dedica todos seus esforços a tentar fazer a vida impossível a um desafortunado grupo de cinco adolescentes. Nem precisa dizer que o conseguem, atacando-lhes com desmesurados utensílios de açougueiro perfeitamente afiados.

Muito bonita e pedagógica, por exemplo, a cena em que um dos sádicos membros desse curioso clã familiar, o terrível e disforme "Cara de couro", dá uma lição magistral de como funciona bem sua monumental moto-serra, usando para isso o tórax e o estômago de um indefeso menino que anda em cadeira de rodas. Posteriormente, uma das meninas, horrorizada e desorientada pelo sangrento e selvagem espetáculo que presenciou, consegue milagrosamente escapar da brutal matança inicial e passa todo o filme correndo como uma louca de lá para cá, perseguida muito de perto e sem descanso pelo louco da moto-serra, que está desejoso de fazer vibrar de novo sua imponente máquina esquartejadora.

Resumindo, um filme ao lado do qual a aterrorizadora Sexta-feira 13 poderia equiparar-se a A Casa dos Espiritos. Pois bem, hoje vamos ver uma sensacional partida, na qual, após um espetacular sacrifício de dama do romântico russo Emanuel Schiffers, o rei de Nolde é acossado e perseguido sem descanso pelas sanguinárias peças brancas. E há que dizer que, diferentemente da menina do filme, o rei negro não vai conseguir se salvar da matança, apesar de ter corrido pelo tabuleiro mais do que Forrest Gump.

Emanuel Schiffers - Nolde
1872

* Estava pesquisando para a matéria sobre O Massacre da Serra Elétrica, que estréia amanhã e achei esse texto! Ri tanto (principalmente com o final) que tinha que dividir com vocês... O autor chama-se Richard Guerreiro.

ED CONDÃO E O CASO DOS SAPATINHOS DE CRISTAL - CAPÍTULO III

Capítulo 2 em Minha Vida É uma Fábula

“Achados e Perdidos da Carochinha” era o que se lia na placa. A dona do local me recebeu com um olhar pouco amigável, como se dissesse que eu não tinha perdido nada ali, mas não me deixei intimidar. Sabia que era questão de tempo até ela começar a achar que eu era o homem da sua vida. A julgar pelo palito de dentes que ela mascava no canto da boca e o figurino de Rambo, de muito tempo, talvez. Mas isso não importa agora. Vamos aos fatos: eu não quis perguntar diretamente pelos sapatinhos de cristal pra não levantar suspeitas. Não sobre o caso, mas sobre minha masculinidade. Não ia pegar bem um sujeito como eu sair perguntando sobre sapatinhos de cristal num bairro como aquele. Tsc, tsc. Perguntei, então, genericamente, se não costumavam aparecer sapatos por ali. Ela gaguejou. Disse que aquilo não era da minha conta e me expulsou a vassouradas. Gretel gostou dessa parte. Sentiu-se vingada. Mas já era tarde e eu não queria perder a reprise de Histórias que as Nossas Babás Não Contavam na TV, então, voltamos para o escritório pela estrada de tijolos amarelos. Sem pistas.

Quando acordei na manhã seguinte, o vizinho ainda não tinha apanhado a sua edição do Le Monde Enchanted. Aproveitei pra olhar os classificados. Há sempre muitas garotas anunciando e talvez uma delas pudesse me dar mais informações sobre o caso. Entre outras coisas, claro. Huuummmm.... Interessante. “Dançarina exótica. Sapatos vermelhos. Ele, ela e casal. Hotel/motel. Venha dançar comigo!”. Era o que dizia o anúncio. Sempre gostei de garotas que sabiam como se mexer. E aquela parecia versátil. Como o anúncio falava em sapatos, talvez ainda pudesse incluir como despesas referentes ao caso. Excelente idéia! Liguei antes mesmo de terminar o café-da-manhã. Uma voz sensual atendeu:

 

— Alôw?!

— Oi! É você a dançarina exótica do anúncio?

— Posso ser quem você quiser, meu bem.

— Jura??

— Claro. Principalmente se você pagar em dinheiro.

 

Pelo tom da voz, percebi que ela já estava caidinha por mim, mas fiz jogo duro:

 

— Tudo bem. Mas não pago o táxi, neném.

— Não tem problema, garanhão. Mas sem táxi, o preço do show aumenta.

— Ok, ok.... nunca contrario uma dama. Mas antes me diga: sapatos só vermelhos ou você, por um acaso, não teria também algo mais transparente?

 

Ela mudou de tom, subitamente:

 

— Já entendi perfeitamente onde você quer chegar... Diga pra Cindy que eu não tenho nada a ver com isso. Ela que pergunte ao marido dela! Não quero me meter nessa pouca-vergonha. Na verdade, não sou uma menina má, apenas me desenharam assim. Que culpa tenho eu? Mas nunca seria capaz de roubar o ganha-pão de uma colega, isso não! Tenho os meus princípios!

 

Antes que eu pudesse dizer “calma, baby”, ela bateu com o telefone na minha cara. Dançarina temperamental aquela! Ainda bem que sua performance é com sapatos vermelhos e não com espadas. Mesmo não tendo pago por seus serviços, ela me deu o que eu queria... Bem, nem tudo. Mas pelo menos já tinha um nome pelo qual procurar.

(por Vívian)

 

Em breve, a parte 4, aqui mesmo (provavelmente).

SOM DE PRIMEIRA

Está de volta o Alta Fidelidade. Hora de dar uma passadinha lá e dizer "oi" para o André Cananéa.

Estamos aqui, direeeeeeeto da redação do Jornal da Paraíba, no dia de adiantamento. Bom, desta vez não vou fazer o ilustre leitor acompanha passo a passo. Basta saber que é 13h39 e até agora já fiz o seguinte:

- Matéria sobre o I Encontro de Teatro em Aids, que será em Areia.

- Matéria sobre o filme Ray, que estréia amanhã.

- Revisão da capa de domingo, com os cinco indicados ao Oscar.

- Revisão da capa sobre Ray.

Ainda falta:

- Matéria sobre as outras estréias de amanhã: O Amigo Oculto e O Massacre da Serra Elétrica.

- A página 2 de domingo, com os outros indicados nas principais categorias do Oscar.

- A crítica de domingo, sobre... bom, ainda vou decidir.

E que Deus me ajude...

DE GENÉTICA E TRAIÇÕES

Ainda na minha fase de cortar revistas, em 1994, guardei uma matéria da Veja por causa de uma foto (uma mulher de óculos escuros com um cigarro na boca e várias mãos masculinas em volta, oferecendo isqueiros) e só depois é que fui ler a matéria. Tratava-se do lançamento do livro O Animal Moral - Psicologia Evolutiva e Vida Cotidiana, de Robert Wright, hoje do Center for Human Values da Universidade de Princeton.

O livro (que eu não li, só a matéria) defende uma tese que caiu como uma bomba na minha vida de monogâmico de carteirinha e com as mensalidades em dia: geneticamente, o homem não teria nascido para a fidelidade. O diabo é que a tese fazia o maior sentido, tanto que até hoje não a esqueci e para mim ela continua tendo fundamento.

Resumindo, o comportamento sexual do homem desde os tempos das cavernas, motivado pelo funcionamento de seu aparelho reprodutor, seria o de espalhar seus genes o máximo possível, para assegurar a perpetuação da espécie. Já a mulher - que não espalha os genes, mas os recebe para gerar a prole - escolheria aquele que, para ela, demonstraria ser o reprodutor com os melhores genes e, portanto, mais capacidade de formar uma prole de melhor qualidade genética.

Assim, isso explicaria o comportamento canalha dos homens em geral e também porque a maioria das mulheres só tem olhos para os sujeitos mais fortes e/ ou bonitos. Para piorar - no meu caso, que não me enquadro extatamente no perfil forte/ bonito - deu no Fantástico de domingo que uma pesquisa mostrou que quando elas estão no período fértil, aí é que essa preferência se manifesta. E é por aí que os meos fortes/ bonitos estariam em desvantagem, explicando certas trocas de namoro e/ ou traições por parte das mulheres.

Estaria aí a gênese das tão populares frases "Nenhum homem presta" e "As mulheres só gostam dos canalhas". Isso também explicaria aquela frase de Harry & Sally - Feitos Um para o Outro, quando Harry diz para Sally que não pode existir amizade entre homens e mulheres, "porque sempre haverá o sexo entre eles".

Agora, muita calma nessa hora: galinhas, nem se animem. Isso tudo aí está enraizado na nossa herança genética, é verdade, mas o ser humano é muito mais complexo que isso. Não somos animais irracionais, as decisões de homens e mulheres envolvem muito mais aspectos a serem considerados, como a psicologia e o fato de vivermos em sociedade. E a sociedade, seja ela qual for, cria suas próprias regrinhas básicas de convivência.

O fato de não sermos irracionais é o que faz com que as mulheres consigam vez por outra olhar mais do a pretensa "capacidade genética" em um homem. Ou, pelo menos, mais do que a capacidade genética para sobreviver na selva. Também não concordo com a frase de Harry & Sally, mas essa explicação é longa e merece um texto à parte.

O caso também é que na nossa sociedade ocidental, a monogamia e a fidelidade - bem ou mal - calharam de fazer parte dessas regrinhas básicas de convivência. Claro que tudo é uma questão de convenção, ou seja, de uma combinação entre as partes envolvidas. Se o rapaz e a moça aceitam que o outro terceirize seus encantos, tudo ótimo - ninguém absolutamente tem nada a ver com isso. Mas se um deles não topar, nada dá o direito ao outro de "pular a cerca". Melhor pular é fora do relacionamento antes de magoar alguém.

Porque a libido, as tentações, até a propensão à traição, tudo isso a ciência explica. Mas para fazer deliberadamente alguém sofrer, isso não é desculpa, de jeito algum. Temos que conviver com a nossa herança genética, mas com a nossa consciência nos lembrando sempre que o tempo das cavernas já passou.

"ED CONDÃO" CONTINUA
Se alguém leu o primeiro capítulo de Ed Condão e o Caso dos Sapatinhos de Cristal, publicada neste blog dia 12 de fevereiro, venho através desta informar que a segunda parte já está disponível, no blog Minha Vida É uma Fábula, que, embora ele não esteja assinando, é do nosso André Ricardo Aguiar.  Dêem uma passada por lá.
CRÍTICA/ "O AVIADOR"
Hollywood em delírio

Antes de ter cenas espetaculares, O Aviador (The Aviator, EUA/ Japão/ Alemanha, 2004) é um filme de Martin Scorsese. Logo, ele prefere dissecar o personagem-título, o milionário e produtor de cinema Howard Hughes (Leonardo DiCaprio), e o filme tem tons muito mais psicológicos do que seria esperado de uma superprodução.

Todo o filme é visto pelos olhos de Hughes, um obcecado pela aviação e pelo cinema e vítima de transtorno obsessivo-compulsivo. A Hollywood das décadas de 1930 e 1940 é sempre delirante, nas loucas festas ou no espocar dos flashes dos fotógráfos. As alucinações de Hughes são mostradas com brilhantismo - repare na importância que o filme dá às mãos. Por outro lado, Scorsese não economizou efeitos visuais nas cenas de aviação, um pouco como o próprio Hughes não poupou esforços para filmar as suas em Anjos do Inferno (1930). O resultado oscila, mas algumas cenas são mesmo de tirar o fôlego.

O diretor homenageia todo o cinema da época, tentando refletir o seu estilo nas cores acentuadas, lembrando o Technicolor, e na excelente trilha sonora - na música do período, muito bem aproveitada, ou nos excelentes temas de Howard Shore. DiCaprio está ótimo, pela primeira vez convencendo como adulto, mas quem está mesmo incrível é Cate Blanchett, como a grande Katharine Hepburn. Afetada, ela chega a assustar na primeira aparição, mas depois dá um show de interpretação. O contrário de Kate Beckinsale, que não tem carisma suficiente para ser Ava Gardner. O que não diminui a grandeza do ótimo O Aviador. (Renato Félix)

O Aviador. The Aviator. Estados Unidos/ Alemanha/ Japão, 2004. Direção: Martin Scorsese. Elenco: Leonardo DiCaprio, Cate Blanchett, Kate Beckinsale, John C. Reilly, Alec Baldwin, Alan Alda, Ian Holm, Danny Huston, Gwen Stefani, Jude Law, Willem Dafoe.

*Publicado no Jornal da Paraíba, em 20 de fevereiro de 2005

CRÍTICA/ "MENINA DE OURO"


Sutileza emocionante

Se um diretor é um contador de histórias, Clint Eastwood chegou no ápice com Menina de Ouro (Million Dollar Baby, EUA, 2004). No filme, ele segue o estilo de seus melhores trabalhos: a discrição e a simplicidade. E, como no anterior Sobre Meninos e Lobos (2003), consegue criar um filme de rara beleza.

O tema que é ponto de partida do filme, o boxe feminino, pode ser tido como desinteressante - o que não deixa de ser um desafio. Eastwood faz o velho treinador Frankie Dunn, que mantém sua velha academia, tendo o ex-boxeador Eddie Drupis como empregado. Ambos levam suas marcas da vida, até que surge Maggie Fitzgerald (Hilary Swank) insistindo para que Frankie a treine.

Clint, como diretor, é sutil: parece confiar plenamente na história que tem nas mãos. Conduz o filme de uma maneira que, quando você perceber, já vai estar apaixonado pelo otimismo e força de vontade de Maggie. Ainda mais porque ela é interpretada esplendidamente por Hilary, a passos firmes para seu segundo Oscar e a recuperação da carreira, que andava estagnada.

Eastwood e Morgan Freeman também estão perfeitos e foram justamente indicados aos Oscar, num dos filmes mais emocionantes dos últimos anos. Mas Clint evita olimpicamente a pieguice e tira sua força dessa combinação perfeita entre atores e trama. Alguém já disse que o papel do diretor é pôr as pessoas no lugar certo e, depois, não atrapalhar. (Renato Félix)

Menina de Ouro. Million Dollar Baby. Estados Unidos, 2004. Direção: Clint Eastwood. Elenco: Clint Eastwood, Hilary Swank, Morgan Freeman, Jay Baruchel, Lucia Rijker, Brian O'Byrne.

*Publicado no Jornal da Paraíba, em 20 de fevereiro de 2005

CRÍTICA/ "SIDEWAYS - ENTRE UMAS E OUTRAS" (II)

Um filme a ser degustado

Pessoas que redescobrem a si mesmas em plena estrada é praticamente um subgênero no cinema americano. E dele já faz parte Sideways - Entre Umas e Outras (Sideways, EUA, 2004), filme que conquistou a crítica americana.

A história mostra uma dupla de amigos em viagem pela rota dos vinhos na Califórnia. Miles (Paul Giamatti) é um escritor frustrado, ainda sofrendo por uma separação. Jack (Thomas Haden Church) é um ator de tevê a uma semana de se casar. Miles pretende apresentá-lo ao meticuloso mundo da degustação de vinhos. Jack tem outros planos: uma última farra antes de se “amarrar”.

Jack consegue um encontro com Stephanie (Sandra Oh), que trabalha numa vinícola e, para Miles, com a garçonete Maya (Virginia Madsen), também apaixonada por vinhos. Juntos o quarteto sai algumas vezes e, embora Jack e Stephanie se entendam rapidamente, para o tímido Miles e a sofrida Maya as coisas não são tão simples.

Mesmo com todas as informações sobre a bebida, Sideways é um ótimo filme sobre as relações humanas, sobre ser verdadeiro em um relacionamento, e sobre a superação das dores. Tudo isso acertadamente mostrado com muito “pé no chão”.

O filme, dirigido por Alexander Payne, conta ainda com a bela paisagem da Califórnia. E alterna cenas cômicas com outras bastante tocantes - e muitas vezes também mistura os tons, criando um sabor diferente. Como um bom vinho, é preciso degustá-lo com atenção e cuidado. (Renato Félix)

Sideways - Entre Umas e Outras. Sideways. Estados Unidos, 2004. Direção: Alexander Payne. Elenco: Paul Giamatti, Thomas Haden Church, Virgia Madsen, Sandra Oh, Marylouise Burke.

*Publicado no Jornal da Paraíba, em 20 de fevereiro de 2005
**Não é engano: já saiu uma outra crítica sobre
Sideways aqui e no JP no domingo passado. Esta é outra (por isso o "II" no título, percebeu?

CRÍTICA/ "EM BUSCA DA TERRA DO NUNCA"


Inspiração infantil

Muita gente reclamou que Em Busca da Terra do Nunca (Finding Neverland, Inglaterra/ EUA, 2004) deixou de lado vários aspectos menos nobres da biografia de J.M. Barrie, o autor de Peter Pan. Mas, se o título fala em uma procura pela Terra do Nunca, o filme está bem no espírito da peça de Barrie - e, nesse aspecto, faz todo o sentido.

Barrie (Johnny Depp), já um autor consagrado, estava numa má fase. Sem empolgação pelo trabalho, suas peças também já não diziam muita coisa ao público. Isso começa a mudar quando ele conhece uma família composta por uma jovem viúva (Kate Winslet) e seus filhos. O autor começa a se envolver com eles e seus problemas e, entre outras coisas, brinca muito com os meninos, criando com eles mil fantasias. E são essas fantasias que o inspiram na criação de sua obra-prima imortal.

Em Busca da Terra do Nunca tem uma reconstituição de época primorosa e elegante, primando pela suavidade. E há divertidas seqüências com Barrie e as crianças, além das boas atuações de Depp, Kate e Julie Christie (como a rigorosa mãe de Kate).

Mas os grandes momentos estão reservados para o final, com a apresentação de estréia da peça - para a qual Barrie convida crianças de um orfanato - e uma outra, especial para a personagem de Kate Winslet. São tão bem filmadas que dá vontade de bater palmas quando Peter Pan pergunta se a platéia acredita em fadas. (Renato Félix)

Em Busca da Terra do Nunca. Finding Neverland. Inglaterra/ Estados Unidos, 2004. Direção: Marc Foster. Elenco: Johnny Depp, Kate Winslet, Julie Christie, Radha Mitchell, Dustin Hoffman, Freddie Highmore, Ian Hart, Kelly MacDonald.

*Publicado no Jornal da Paraíba, em 20 de fevereiro de 2005

CRÍTICA/ "ELEKTRA"


Longe das más companhias

O que foi visto em Demolidor, o Homem Sem Medo (2003) não deixava prever nada animador para Elektra (Elektra, EUA, 2005), o filme estrelado pela anti-heroína ninja dos quadrinhos, que foi o interesse romântico do Demolidor no filme do herói. A direção, no primeiro filme, foi equivocada no ritmo e nas lutas ao estilo Matrix. Felizmente, Elektra tem outro diretor (Rob Bowman) e isso muda tudo.

Na pele nada desprezível de Jennifer Garner, a personagem ainda não ficou fiel como os fãs gostariam, mas ao menos ganhou uma dimensão dramática interessante, que em determinado momento deve lidar com um dilema “ético”: assassina contratada e implacável, ela tem que escolher se cumpre o contrato ou protege aqueles que deveria matar.

A lamentar, um roteiro que deixa alguns furos difíceis de engolir e uns escorregões no ritmo em momentos-chave - principalmente no combate final entre Elektra e o principal vilão da história, com lençóis brancos flutuando pela cena, com pouco resultado visual e menos ainda narrativo. (Renato Félix)

Elektra. Elektra. Estados Unidos, 2005. Direção: Rob Bowman. Elenco: Jennifer Garner, Terence Stamp, Goran Vijsnic, Kirsten Prout, Will Yun Lee, Jason Isaacs.

*Publicado no Jornal da Paraíba, em 20 de fevereiro de 2005

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