DEUSA DE CARNE E OSSO

Poucas coisas são tão anos 1970 quanto o seriado Mulher-Maravilha. Estrelado por Lynda Carter, as aventuras da princesa amazona eram exibidas semanalmente na televisão americana de 1976 a 1979. É datado, os efeitos especiais são mais que ultrapassados, mas ninguém consegue pensar em uma Mulher-Maravilha mais perfeita que ela. Agora, os saudosistas e/ ou curiosos têm uma nova opção para rever a heroína prendendo bandidos com seu laço mágico: a primeira temporada completa de Mulher-Maravilha está saindo em DVD este mês.

São cinco DVDs contendo o piloto, de 1975, os treze primeiros episódios exibidos com sucesso no horário nobre da rede ABC em 1976 e o documentário Beleza, Músculos e Braceletes à Prova de Balas - Uma Retrospectiva da Mulher-Maravilha e comentários em áudio do episódio piloto. Tudo bem no espírito que motivou a criação do personagem: as amazonas viviam isoladas do mundo dos homens na Ilha Paraíso, até que um avião de combate cai na ilha.

Era 1941 e, ao saberem do que se passava no mundo - a luta dos aliados contra a Alemanha nazista - elas decidem ajudar e enviar ao mundo uma guerreira. É organizado um torneio e secretamente a princesa Diana, filha da rainha Hipólita, gerada após um pedido aos deuses e presenteada por eles com certos poderes, ganha o uniforme, os braceletes e o laço que obriga qualquer um preso nele a dizer a verdade.

Nascia aí a Mulher-Maravilha, criada pelo psicólogo William Moulton Marston, amante de quadrinhos e mitologia para a ser a primeira super-heroína num universo onde, até então, só os homens combatiam o crime.

A primeira tentativa de dar vida ao seriado foi um desastre. Existe um piloto, de 1974, no qual a heroína é vivida pela loira Cathy Lee Crosby, com outro uniforme. No ano seguinte, convocaram a Miss America Lynda Carter, com seus 1,80m e 23 anos, voltaram à base original e o primeiro ano do seriado se passa exatamente durante a II Guerra Mundial, com Diana lutando contra espiões - ocasionalmente ajudada pela Moça-Maravilha, sua irmã mais jovem. A partir da segunda temporada, quando passou para a rede NBC, suas aventuras passaram a ser vividas nos tempos atuais.

O seriado transformou Lynda Carter em símbolo sexual. Era uma época em que os super-heróis estavam voltando à moda. O seriado paródico Batman já havia dado a partida no fim dos anos 1960, e seriados de tevê como Mulher-Maravilha e Homem-Aranha abriram caminho para a superprodução no cinema de Superman - O Filme, em 1978.

Quem lê quadrinhos hoje pode estranhar: há diferenças fundamentais entre a Mulher-Maravilha daquela época e a dos gibis de hoje. Atualmente, ela tem um cargo diplomático: é embaixadora da Ilha Paraíso e suas ligações com os deuses gregos é maior. Apesar de ainda manter e seu avião invisível, ela pode voar.

Mas a maior diferença é que, hoje, ela não possui uma identidade secreta. Nos quadrinhos da época e no seriado, ela vive entre as pessoas comuns como a secretária Diana Prince. Quando girava no próprio eixo, aparecia um clarão brilhante e ela se transformava na Mulher-Maravilha. Pode ser kitch, mas é também uma daquelas imagens da tevê que ficam para sempre. (Renato Félix)

*Publicado no Jornal da Paraíba, quando a primeira temporada estava sendo lançada em DVD no Brasil (desculpem, mas esqueci a data). Atualmente, a segunda temporada acabou de ser lançada por aqui e a terceira já está disponível nos Estados Unidos.
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*Só porque ontem eu comprei o DVD da primeira temporada completa!

MOMENTO "80 MÚSICAS DOS ANOS 1980"

 

 

 

 

 

"Migalhas dormidas do teu pão
Raspas e restos me interessam
Pequenas poções de ilusão
Mentiras sinceras me interessam,
Me interessam..."

"Maior abandonado", Barão Vermelho, 1984 

*Festa 80 Músicas dos Anos 1980 - Parte IV - com a presença de Mariana Claudino, co-autora do Almanaque Anos 80! Dia 23 de julho, no Parahyba Café.

MOMENTO "80 MÚSICAS DOS ANOS 1980"

"Now that ain’t workin’ that’s the way you do it
You play the guitar on the mtv
That ain’t workin’ that’s the way you do it
Money for nothin’ and your chicks for free"

"Money for nothing", Dire Straits, 1985.

*Festa 80 Músicas dos Anos 1980 - Parte IV - com a presença de Mariana Claudino, co-autora do Almanaque Anos 80! Dia 23 de julho, no Parahyba Café.

CRÍTICA/ BATMAN BEGINS

Batman Begins Batman Begins

Batman Begins com o pé direito

Se existe alguém no mundo que não sabe sequer do que se trata o nome “Batman”, ele não precisará mais do que assistir a Batman Begins (Batman Begins, EUA, 2005) para estar por dentro do que há para saber sobre o assunto. Disparada a melhor adaptação do Homem-Morcego já realizada com atores de carne e osso, o filme de Christopher Nolan - que vendeu 475 mil ingressos em seu primeiro fim de semana no Brasil - vai ao âmago do personagem e é tudo o que o Batman de Tim Burton (1989) deveria ter sido e não foi.

O caráter gótico, por exemplo, com uma cidade cenográfica que nunca inspirava verdade, foi substituído por um ambiente mais realista - com exceção para os inúmeros trens elevados, que dão a Gotham City um ar de Metrópolis (não a do Super-Homem, mas a do filme de Fritz Lang). Esse cenário “de verdade” é ideal para um herói “de verdade” - e é assim que Batman Begins trata o Homem-Morcego.

Tudo o que cerca o início das aventuras do herói é explicado de maneira muito satisfatória e sem grandes exageros (não é o Coringa que mata os pais de Bruce Wayne, na coincidência extremamente forçada que o Batman de Tim Burton quis empurrar, mas um assaltante comum). Sabe-se como Bruce, ainda criança, descobre a caverna embaixo da mansão, como viu a morte de seus pais, como conviveu com bandidos tentando desordenadamente descobrir o modo de pensar e agir de um criminoso, como foi treinado em artes marciais, de onde surgiu o batmóvel e todo o equipamento que usa, como o morcego foi escolhido como imagem para aterrorizar os bandidos, e como finalmente aprendeu a domar sua raiva e usá-la para levar a justiça à cidade e não para se vingar.

Ou seja: o espectador comum entende perfeitamente quem é o Batman, quais são suas motivações, porque ele faz o que faz, se identifica e deixa de pensar que tudo não passa de “mera história em quadrinhos”. E, mesmo assim, as referências estão lá o tempo todo: atenção para o final, que remete diretamente à conclusão da minissérie em quadrinhos Batman: Ano Um e já abre caminho para uma continuação.

O filme é brilhante, sobretudo, ao mostrar que - ao contrário do Super-Homem que, no fundo, é Clark Kent, um bom rapaz que veio do Kansas - Batman não é, na verdade, Bruce Wayne. Bruce é o disfarce: ele é mesmo o Batman, um sujeito que só vive para combater criminosos. A relação com a namoradinha promotora (Katie Holmes, um dos pontos fracos do filme) e, principalmente, com o mordomo Alfred (Michael Caine, extraordinário) mostram isso com perfeição.

Como vilão, o Espantalho não cai no caricato e dá conta do recado, até abrir caminho para o verdadeiro antagonista do filme. Mas até chegar nesse ponto, a história mostra Bruce galgando degraus até encontrar a si mesmo. E na pele de Christian Bale, Bruce Wayne encontrou o ator ideal, apoiado por coadjuvantes primorosos (Morgan Freeman, Gary Oldman, Liam Neeson).

Nolan, um diretor que já mostrou ter personalidade, soube equilibrar o lado sombrio do morcego, sem transformá-lo num psicopata, como aconteceu durante certa época nos gibis. Mesmo assim, Batman nunca esteve tão aterrorizante: dá para entender por que os bandidos têm medo dele.

É um passo definitivo para uma bem-sucedida adaptação de quadrinhos para o cinema: respeito para com os personagens. Trazê-los para a vida real e não fechá-los num mundo de mentirinha foi a chave do sucesso dos dois filmes do Superman (1978/81) e dos dois do Homem-Aranha (2002/04). É também o alicerce para que um longa como Batman Begins não seja construído só como uma aventura divertida de super-herói - mas, acima de tudo, como um ótimo filme. (Renato Félix)

Batman Begins. Batman Begins. Estados Unidos, 2005. Direção: Christopher Nolan. Elenco: Christian Bale, Michael Caine, Liam Neeson, Katie Holmes, Gary Oldman, Cillian Murphy, Morgan Freeman, Tom Wilkinson, Rutger Hauer, Ken Watanabe, Linus Roache, Sara Stewart, Gus Lewis. (****1/2)

CRÍTICA/ CASA DE AREIA

A habilidade de não ser chato

A maior qualidade de Casa de Areia (Brasil, 2005) é sua habilidade de não se tornar um filme absolutamente monótono, mesmo com uma história deficiente. Sem dúvida, é a habilidade do diretor Andrucha Waddington que mantém o espectador preso à trama até o fim - além, é claro, do mais que propalado duelo de interpretações entre Fernanda Montenegro, a mãe, e Fernanda Torres, a filha.

Inspirado a partir de uma fotografia, não é de se estranhar que o visual ganhe mais atenção do diretor que a história. Como quase sempre acontece com os filmes da Conspiração, Casa de Areia apresenta uma fotografia exuberante, em detrimento de uma narrativa que poderia ser melhor cuidada.

Para um espectador razoavelmente atento, os saltos no tempo e as mudanças de personagens entre as duas fernandas não chegam a confundir. Mais difícil de engolir é o personagem de Emiliano Queiroz atravessar décadas mesmo estando já bem velho desde o começo.

Mãe e filha atrizes conseguem dar intensidade a personagens que, na verdade, são um tanto rasas, unidimensionais. Numa narrativa episódica, Fernanda Torres acaba tendo mais possibilidades e aproveita bem. O que sempre importa é a situação à qual as mulheres estão presas e não conseguem sair. Seria uma metáfora para a relação entre elas, que, apesar dos problemas, é indissolúvel? Pode ser.

Curioso é que o filme não tem trilha sonora alguma. Em compensação, vários musicos aparecem como atores: Seu Jorge, Luiz Melodia, Jorge Mautner... (Renato Félix)

Casa de Areia. Brasil, 2005. Direção: Andrucha Waddington. Elenco: Fernanda Montenegro, Fernanda Torres, Seu Jorge, Luiz Melodia, Stênio Garcia, Enrique Díaz, Emiliano Queiroz, Ruy Guerra. (***)

CRÍTICA/ STAR WARS - EPISÓDIO III: A VINGANÇA DOS SITH

Star Wars Episode III: Revenge of the Sith Star Wars Episode III: Revenge of the Sith

Espiral de tragédias

Não se sabe bem se George Lucas foi melhorando ao longo dos três filmes, ou se realmente só havia o que ser dito na metade final do último capítulo, mas o fato é que Star Wars - Episódio III: a Vingança dos Sith (Star Wars - Episode III: Revenge of the Sith, EUA, 2005) é, disparado, o melhor filme da segunda trilogia de Guerra nas Estrelas. Afinal, toda ela só existe mesmo para o grande clímax final: a queda dos jedi e a transformação de Anakin Skywalker em Darth Vader.

E esse clímax é mostrado com um peso dramático acertado, numa espiral de tragédias que deixam um final brilhante, mas amargo, só consolável - para quem se envolve com os personagens - por se saber que já existem os episódios 4, 5 e 6 para deixar tudo bem no final. Hayden Christensen melhorou muito desde O Ataque dos Clones (2002), e Natalie Portman e Ewan McGregor estão, como sempre, excelentes.

Mas na hora de comparar com a série original, a sensação é de sempre falta alguma coisa. Na verdade, não é o que falta, e sim o que há de excesso que faz a nova trilogia ficar abaixo da clássica.

De todas as influências que Guerra nas Estrelas (1977), O Império Contra-Ataca (1980) e O Retorno de Jedi (1983) tinham, uma era a mais forte: os descompromissados seriados de aventuras das décadas de 1930 e 1940,que devolveram o gosto das matinês ao cinema baixo astral dos anos 1970. A nova série preferiu assumir um tom épico, tratar de política.

Quis virar coisa séria. E acabou perdendo um pouco da graça. (Renato Félix)

Star Wars - Episódio III: a Vingança dos Sith. Star Wars - Episode III: Revenge of the Sith. Estados Unidos, 2005. Direção: George Lucas. Elenco: Ewan McGregor, Natalie Portman, Hayden Christensen, Ian McDiarmid, Samuel L. Jackson, Jimmy Smits, Anthony Daniels, Kenny Baker, Christopher Lee, Keisha Castle-Hughes. Voz: Frank Oz. (****1/2)

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