AMERICANIZADA, NADA! BRASILEIRÍSSIMA

Responda rápido: que artista brasileiro conseguiu reconhecimento internacional mais duradouro? Em qualquer lista, você obrigatoriamente terá de colocar Carmen Miranda. E que não venham com a história de que ela é portuguesa: apesar de nascida em Marco de Canavezes, em Portugal (em 9 de fevereiro de 1909), Maria do Carmo Miranda da Cunha chegou ao Rio de Janeiro aos dez meses de idade. 20 anos depois, estava gravando o primeiro disco, passo inicial para ser a principal estrela do país no cinema, e ícone até hoje, 50 anos após sua morte (em 5 de agosto de 1955).

Baixinha, sem ser especialmente bonita, Carmen se deu bem numa época em que o som valia muito mais que a imagem: a era do rádio. Foi levada para o veículo em 1928 pelo compositor Josué de Barros, largou o emprego de chapeleira e gravou seu primeiro disco um ano depois (com o samba "Não vá simbora" e o choro "Se o samba é moda", ambos de Josué). Mas quando teve que pôr a imagem à prova, nenhum problema: estreou no teatro em 1930, com Vai Dar o que Falar, e no cinema em 1932, definindo sua "persona" visual em Alô, Alô Carnaval (1936), da Cinédia.

A já Pequena Notável começou a ser disputada pelas rádios, com salários cada vez mais altos, até se tornar a cantora mais bem paga do Brasil. Nessa época, ela já havia lançado a marchinha "Pra você gostar de mim (Taí)", que todo mundo ainda conhece de cor, e, nos filmes, interpretado "Cantores do rádio" (com a irmã Aurora) e "O que é que a baiana tem". Mas não foram os filmes brasileiros o passaporte dela para Hollywood. Sua participação neles era mínima, quase sempre aparecendo só como cantora, com uma música ou duas. O que levou Carmen a Hollywood foi o Cassino da Urca.

O Cassino era o ápice do show-business brasileiro. Ela começou a se apresentar lá em 1936 e foi a consagração total. Foi lá que o produtor americano Lee Shubert a viu e a convenceu a tentar uma carreira nos Estados Unidos. Em 1939, lá estava a Pequena Notável embarcando num transatlântico com o Bando da Lua, a caminho de se transformar na Brazilian Bombshell.

Seria exagero dizer que Carmen colocou o Brasil no mapa? Milhões certamente só descobriram que o país existia através dos seus filmes hollywoodianos. No primeiro, Serenata Tropical (1940), da Fox, já cantava quatro músicas: entre elas, "South american way" e "Mamãe eu quero". Vieram outros treze filmes – que, se não eram exatamente uma maravilha, tiveram momentos de brilho, quase todos graças a Carmen.

Neles, ela cantou clássicos como "Chica chica boom chic" (de Uma Noite no Rio, 1941), "Aquarela do Brasil", "The lady in the tutti-frutti hat" (ambas de Entre a Loura e a Morena, 1943), e "O que é que a baiana tem" (de Serenata Boêmia, de 1944). Também contracenou com astros da comédia, como Groucho Marx (Copacabana, 1947) e Jerry Lewis (Morrendo de Medo, 1953), além da jovem Elizabeth Taylor (O Príncipe Encantado, 1948) - alguns desses filmes estão sendo exibidos no canal pago Telecine Classic (veja na página 3).

Mas nem só de alegrias viveu a estrela. Logo depois de ir para Hollywood, Carmen passou rapidamente no Brasil. Mas no Cassino da Urca, sua casa, a recepção não poderia ser mais fria. A resposta antológica – com amargura, mas também com o brilho característico de Carmen – veio na forma da canção "Disseram que voltei americanizada" (de V. Paiva e L. Peixoto), encomendada por ela.

Americanizada, nada. A rainha dos balagandãs reafirmava sua brasilidade com um bom humor todo dela. Ela fixou um estereótipo do brasileiro em Hollywood – mas isso quando não havia ainda imagem alguma a ser estereotipada. Nos anos 1960, Tom Jobim e a turma da Bossa Nova levariam uma imagem fina do brasileiro para compor com essa outra, festiva e irreverente. Mas, nessa época, Carmen Miranda já não estava lá para defender esse outro lado: ela havia morrido na década anterior, de um colapso cardíaco, depois de passar mal durante a apresentação na TV.

Sua herança ainda se vê por aí. Woody Allen pôs uma brasileira para representá-la no delicioso número do filme A Era do Rádio (1987)... Musicais a trouxeram de volta aos palcos, encarnada por Marília Pêra, em A Vida Fabulosa de Carmen Miranda, e Soraya Ravenle e Stella Miranda, dividindo o papel em South American Way... E que traje típico você acha que a Miss Brasil vestiu no concurso Miss Universo deste ano? A verdade é que o coração do Brasil ainda faz "chica-chica-boom-chic" por Carmen Miranda. (Renato Félix)

*Publicado no Jornal da Paraíba, em 5 de agosto de 2005

ESTRÉIA EM JP/ O GUIA DO MOCHILEIRO DAS GALÁXIAS

The Hitchhiker's Guide to the Galaxy The Hitchhiker's Guide to the Galaxy

Maluquice nas estrelas 

Você acorda pela manhã e descobre que há uma equipe de demolição em frente à sua casa, pronta para botá-la abaixo para dar passagem a uma rodovia. Mais tarde, você descobre que todo o planeta Terra está para ser demolido para dar lugar a uma auto-estrada intergalática e que o amigo que você achava que tinha vindo do interior, na verdade é um alienígena. E este é só o começo do dia nada normal de Arthur Dent, protagonista de O Guia do Mochileiro das Galáxias (The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, EUA/ Inglaterra, 2005), filme que estréia hoje em João Pessoa - uma sala - dois meses após chegar ao Brasil e depois de nascer como radionovela e virar programa de TV e uma série de livros best-seller.

Ancorado no livro, o filme traz de volta um estilo de comédia que parecia ter desaparecido: o nonsense inteligente, com base nos trocadilhos e extraindo o máximo de situações absurdas, nascido com os Irmãos Marx, e bem defendido pelo grupo inglês Monty Python.

Não é por acaso: Douglas Adams (1952-2001), que escreveu a série, escreveu para o Monty Python nos anos 1970, mas O Guia do Mochileiro das Galáxias tem uma diferença: brinca com idéias científicas que fazem certo sentido no meio de tanto absurdo. Seus conhecimentos do assunto estão por todo o livro e tornam tudo ainda mais engraçado. Na verdade, a ciência já prestou a ele suas homenagens: o Conselho Mundial de Astronomia batizou dois asteróides como Arthurdent e Douglasadams.

A série já vendeu mais de 15 milhões de exemplares no mundo - a febre chegou ao Brasil recentemente, graças à republicação do Guia e de suas continuações (O Restaurante no Fim do Universo; A Vida, o Universo e Tudo Mais; e Adeus e Obrigado pelos Peixes!, este ainda não lançado) pela Sextante (com capas ilustradas por William Medeiros, coordenador de criação da TV Cabo Branco e colaborador do JP).

Dent e seu amigo Ford Prefect, já no espaço, precisam escapar dos grosseirões vogons e se envolvem na aventura de Zaphod Beeblebrox (Sam Rockwell), presidente da galáxia, que roubou uma nave espacial movida a improbabilidade infinita, ajudado por Trillian (Zooey Deschanel), outra terráquea sobrevivente, e Marvin, um robô com crise de depressão. E ainda descobrir a pergunta final sobre “a vida, o universo e tudo mais” - porque a resposta já se sabe, mas ela não faz o menor sentido sem a pergunta.

Com vozes de Alan Rickman e Helen Mirren, e a participação de John Malkovich e Bill Nighy, o filme traz uma solução incomum para que o melhor do texto de Adams não se perca em legendas gigantescas: os diálogos continuam legendados, mas a narração está em português, com voz de José Wilker. Nonsense, claro, mas o que não é no Mochileiro das Galáxias? (Renato Félix)

O Guia do Mochileiro das Galáxias. The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy. Estados Unidos/ Inglaterra, 2005. Direção: Garth Jennings. Elenco: Martin Freeman, Mos Def, Sam Rockwell, Zooey Deschanel, John Malkovich, Bill Nighy, Warwick Davis. Vozes: Alan Rickman, Stephen Fry, Helen Mirren. Narração em português: José Wilker.

*Publicado no Jornal da Paraíba, em 5 de agosto de 2005

ENTREVISTA (COLETIVA?) (V)

- E que filme mais o fez pensar?
- Recentemente, Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças e Forrest Gump, o Contador de Histórias.

- Cite um filme meio chato, mas bom.
- 2001 - Uma Odisséia no Espaço.

- Um filme que você acha muito bom, mas que jamais assistiu.
- O Milagre de Anne Sullivan, de 1962, de Arthur Penn, com Anne Bancroft. Morro de vontade, mas nunca vi.

O BEIJO VIROU UMA GELÉIA DE MOCOTÓ

Sou conservador em várias coisas. "Ficar", por exemplo, não é comigo.

Já falei sobre isso outras vezes com amigos e amigas e até já escrevi sobre isso en passant aqui mesmo. Mas o assunto voltou à baila algumas vezes esses dias. Primeiro, uma amiga enrolada com um ficante há meses, para quem eu disse, sobre o assunto, que o "ficar" - embora tenha feito com que as pessoas não regulem mais os beijos como antes - atrapalhou muito os relacionamentos.

Sem generalizar (porque depois dos anos 1960, ninguém foi de ninguém mesmo), antigamente e não faz muito tempo, o beijo era bastante significativo. Se você beijasse a garota era porque queria namorar com ela (mesmo que o namoro fosse um sacríficio necessário para que os beijos acontecessem). Se ela cedesse ao beijo, era porque queria namorar com você. Havia exceções, mas normalmente era tudo relativamente simples. Beijou? Salvo engano, o namoro ia rolar.

O salvo engano não existe mais. Beijou? Isso não quer dizer mais nada, filhote. É melhor perguntar quais são as intenções da pessoa (coisa que só o pai da moça perguntava para o rapaz casadoiro em tempos idos), se é namorar que você quer. Porque é bem possível que a idéia nem esteja passando pela cabeça da sua possível cara-metade. Ah, mas tem aquele detalhe: você pergunta e a cara-metade vira uma ostra e foge como o diabo da cruz.

Exemplo prático: um amigo me disse há algumas semanas que estava feliz da vida porque estava ficando com algumas garotas e o negócio era esse mesmo e tal. Dia desses, ficou com mais uma. E aí, quis engrenar um namoro. E aí, quem não quis foi ela.

Segundo, outra amiga viu fotos da festa oitentista recente e disse que uma namorada minha tinha motivos para ficar super-encucada e ainda perguntou quantas mulheres eu beijei naquela noite. Ora, essa, nenhuma! Só porque tirei umas fotos abraçado com umas amigas? A respeito disso, respondi - atenção, opinião extremamente pessoal à frente - que acho o beijo algo muito importante para ser distribuído sem critérios, ainda mais com mais de uma mulher por noite.

Não quero nunca passar por alguém na rua e pensar: "Acho que beijei aquela garota numa boate". E muito menos que ela pense isso de mim. E sou - até prova em contrário - incapaz de beijar alguém que tenha acabado de conhecer. O maníaco que sou remete "beijo" a "namorar ou vontade de", sinto muito. Coisa mais fora de moda essa, não?

Mas sou ambicioso: quero fazer diferença na vida das pessoas, quero deixar marcas que fiquem para sempre (estou me repetindo, mas dane-se). Sou muito mais pelo duradouro, mesmo que tenha que esperar muito por ele, que pelo efêmero.

O beijo virou uma geléia de mocotó Inbasa e o sentimento é seu recipiente: antes era o copo que você guardava e que era útil, mesmo que pudesse ser quebrado lá na frente; agora é uma caixinha que você joga fora depois de comer a geléia. Tão sublime e tão importante que já foi, hoje não vale mais nada e está meramente à mercê dos mínimos hormônios em ação. Os "avanços" são inevitáveis, mesmo, claro. Mas cada um lida com eles como achar melhor. Eu prefiro complicar minha vida pela dificuldade de encontrar alguém para me envolver do que pela facilidade de me envolver com uma série de "ninguéns". Ou de ser um ninguém para "alguéns", sei lá.

ENTREVISTA (COLETIVA?) (IV)

Como parece que vocês não se empolgaram muito em responder as perguntas, leitores ingratos, vou colocar as perguntas de três em três, pra acabar logo:

- E um filme surpreendente, ou seja, bom e pelo qual você não dava nada.
Kill Bill - Vol. 1. Pelo que eu tinha lido, achava que ia ser um desastre, um banho de sangue sem sentido e um exercício de frescuras narrativas. Mas é um filme divertidíssimo, inteligente e que não se leva a sério. Já me fez rir na abertura, quando usou o logo desbotado dos anos 1970 de uma produtora de filmes de Hong Kong.

- O bom cinema está cheia de cenas marcantes. Cite algumas de sua antologia pessoal.
Nossa! Gene Kelly chapinhando feliz debaixo d'água, em Cantando na Chuva, claro... A corrida de bicicletas no clímax de E.T., o Extraterrestre... A cena da escadaria de Os Intocáveis (com desculpas aos fãs de O Encouraçado Potemkin)... John Wayne cavalgando para cima de Natalie Wood no final de Rastros de Ódio... Cary Grant e Eva Marie Saint em fuga pelo Monte Rushmore, em Intriga Internacional... São muitas, muitas.

- Que filme bom lhe fez mal, de tão perturbador?
Rocco e Seus Irmãos, de Luchino Visconti. É excelente, mas me deixou tão consternado que até hoje não consegui ver de novo.

CRÍTICA/A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE

Charlie and the Chocolate Factory Charlie and the Chocolate Factory

Conto-de-fadas esquizofrênico

Não é por acaso que Tim Burton possui uma assinatura tão marcante. Seu visual passeando entre o gótico e o conto-de-fadas (pendendo mais para um ou para outro, dependendo do filme), invariavelmente acompanhado pela trilha de Danny Elfman, são suportes para histórias de personagens sempre deslocados. É assim com os ambientes de A Fantástica Fábrica de Chocolate (Charlie and the Chocolate Factory, EUA/ Inglaterra, 2005) e seu protagonista, Willy Wonka.

Wonka (Johnny Depp) tem suas razões para - em determinado momento da vida - não querer muito contato com as pessoas. E ele passa 15 anos longe de tudo e todos, até reabrir sua fábrica para cinco crianças sorteadas e seus acompanhantes.

Não é fácil colocar uma atmosfera de conto-de-fadas na tela. É lidar com a mais absoluta irrealidade e, mesmo assim, convencer. Poucos filmes - como O Mágico de Oz (1939) e Mary Poppins (1964) - conseguem. A nova versão de A Fantástica Fábrica de Chocolate, um pouco mais sombria, porém melhor que a primeira, também chega lá.

As crianças são estereótipos, visual e psicologicamente, mas casam bem com a atmosfera encantada do filme. Wonka parece esquizofrênico, mas também à procura de aceitação, um tema recorrente em Tim Burton. Johnny Depp, aliás, tem uma grande atuação (a qual, se fosse Jim Carrey no papel, poderia ser reduzida a um festival de caretas). Seu Wonka inspira piedade e medo. É humano, enfim. (Renato Félix)

A Fantástica Fábrica de Chocolate. Charlie and the Chocolate Factory. Estados Unidos/ Inglaterra, 2005.  ***1/2  Direção: Tim Burton. Elenco: Johnny Depp, Freddie Highmore, David Kelly, Helena Bonham Carter, Noah Taylor, Missi Pyle, James Fox, Deep Roy, Christopher Lee, Annasophia Robb, Julia Winter, Jordan Fry, Philip Wiegratz.

Todo mundo já sabe, mas nunca é demais avisar os distraídos: o Enviada Especial está de volta. Vão logo lá antes que a Pops o tire do ar de novo...
ENTREVISTA (COLETIVA?) (III)
- Cite um filme que frustrou suas melhores expectativas.
Batman Eternamente parecia que tinha chegado para resolver os problemas dos dois primeiros filmes da série, os de Tim Burton. Pelo contrário, trouxe muitos mais com aquele ar carnavalesco e a seriedade jogada no ralo.
CRÍTICA/ QUARTETO FANTÁSTICO

Fantastic Four Fantastic Four

Sem compromisso

Desde a malfadada versão de Roger Corman (que, de tão ruim, bem foi lançada), um filme sobre os primeiros super-heróis da Marvel virou uma temeridade. Mas, na onda das versões bem-sucedidas de X-Men, Homem-Aranha e outros, Quarteto Fantástico (Fantastic Four, EUA, 2005) se sai bem e, se não chega a ser das melhores adaptações de quadrinhos para o cinema, também não é das piores.

O primeiro aspecto que chama a atenção é o tom cômico do filme, deixando um pouco de lado a atmosfera dramática dos últimos filmes de super-heróis (que contribuiu para dar respeitabilidade ao gênero). Quarteto Fantástico é quase sempre engraçado e descompromissado. O filme não se leva muito a sério e nenhum personagem tem lá grande densidade.

Com exceção do Coisa (Michael Chiklis). Como o único dos quatro heróis que não pode “esconder” os poderes (no caso, seu corpo de pedra), ele consegue passar mais personalidade que os outros três juntos. E como o vilão, o Dr. Destino foi mal caracterizado e resulta inexpressivo, é a dinâmica entre o quarteto que responde pelas melhores cenas.

O Tocha Humana é um pós-adolescente (com forçadas cenas de esportes radicais) e suas brigas com o Coisa parecem sitcom, mas divertem. E o romance entre o Sr. Fantástico e a Mulher Invisível não empolga. Não chega a prejudicar seriamente o filme, mas significa alguma coisa quando o único do filme com cara de pedra tem mais carisma que os outros atores juntos. (Renato Félix)

Quarteto Fantástico. Fantastic Four. Estados Unidos, 2005***  Direção: Tim Story. Elenco: Ioan Gruffudd, Michael Chiklis, Jessica Alba, Chris Evans, Julian McMahon, Kerry Washington, Laurie Holden.

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