CRÍTICA/ O JARDINEIRO FIEL

The Constant Gardener The Constant Gardener

Complexo, ousado e intenso

A expectativa era grande, depois do brilhante Cidade de Deus (2002), mas a estréia de Fernando Meirelles no cinema internacional foi aprovada por crítica e público. Em O Jardineiro Fiel (The Constant Gardener, Inglaterra, 2005), complexa trama de espionagem, romance e crítica social, adaptada do romance de John Le Carré, o diretor mostra ter uma “assinatura”, um estilo próprio pelo qual pode ser reconhecido. Não são todos os bons diretores que podem se gabar disso.

Na época das filmagens, no diário que publicou na internet, Meirelles se mostrou preocupado por criar falsas expectativas no público em relação à personagem de Rachel Weisz (Tessa), para depois matá-la no meio da história. A julgar pelo filme, ele resolveu isso subvertendo a linearidade da narrativa: a morte dela acontece logo no começo, desencadeia toda a história, e o romance com o personagem de Ralph Fiennes (Justin) é contada através de flashbacks que cortam a trama.

Foi uma saída inteligente, que vai dando mais importância à história e justificando cada vez mais o comportamento de Justin, fazendo dele bem mais do que um justiceiro ou espião profissional. Nessa descontinuidade da narrativa é onde o filme se assemelha bastante a Cidade de Deus. Também há semelhanças em algumas seqüências mais agitadas, com a câmera nervosa e ritmo empolgante, e nas angulações ousadas. As seqüências na favela de Nairóbi naturalmente lembram às do filme anterior de Meirelles, no que têm de denúncia social e de preocupação em mostrar que também há alegrias e uma vida ali o mais normal possível em meio às dificuldades.

As diferenças começam pelo tema. O problema na Cidade de Deus é a violência; em Nairóbi, é a saúde. Enquanto os habitantes da favela são os protagonistas do filme brasileiro, desta vez o olhar vem de fora: do casal britânico formado pelo diplomata para questões humanitárias e pela ativista dos direitos humanos. O jogo é político e de investigação, mas a partida é estabelecida pelo amor e pela culpa de Justin, ao perder a esposa e perceber que não a conhecia como pensava e até a subestimava - numa atitude travestida de complascência. Daí, ele vai ao fundo de uma conspiração envolvendo uma indústria farmacêutica na África, para fazer justiça aos habitantes de lá, através da justiça própria que faz à mulher. 

Há um bom espaço também para o romance - que não havia em Cidade de Deus: Meirelles consegue momentos delicados, como a bela cena de sexo entre o par central. E nos momentos comoventes em que Fiennes declara amor à esposa morta, numa espécie de alucinação causada pela saudade. O Jardineiro Fiel exige mais atenção que o de costume para a platéia média, com muitas idas e vindas da trama, mas é forte, intenso e recompensador. (Renato Félix)

O Jardineiro Fiel. The Constant Gardener. Inglaterra, 2005.  ****  Direção: Fernando Meirelles. Elenco: Ralph Fiennes, Rachel Weisz, Hubert Koundé, Danny Houston, Daniele Harford, Bill Nighy, Pete Postlethwaite.

CEM PREFERIDOS - 38


38. Muito Barulho por Nada (Kenneth Branagh, 1993)

Shakespeare é Shakespeare - e essa definição já basta. Muito Barulho por Nada não é uma das peças mais importantes do bardo inglês, mas ganhou um filme ensolarado, amoroso, até mesmo faceiro. O texto é um primor e o elenco está soberbo (e Keanu Reeves nem atrapalha). Aliás, há um diálogo no filme que o define bem. É quando o casal formado por Kenneth Branagh e Emma Thompson, depois de baterem boca por meio filme, finalmente se acertam - mas não deixam de discutir. "Somos inteligentes demais para namorar em paz", ele diz a ela, no fim do diálogo. Pois, apesar de ser inteligente demais, o filme namora em paz, sim, com o público.

OLHA QUE COISA MAIS LINDA, MAIS CHEIA DE GRAÇA...

...é a Agda nas suas férias na Cidade Maravilhosa. Com direito a fazer esse tipo de inveja da foto e mostrar tudo (ops, tudo não, calma lá!) no novo fotolog dela. Mais um pro Circuito dos Blogues!

CEM PREFERIDOS - 39


39. Um Corpo que Cai (Alfred Hitchcock, 1958)

Simplesmente um dos filmes mais perfeitos já realizados. Roteiro intrincado, que começa como trama policial, vira romance e depois um drama psicológico. E o tempo todo é um maravilhoso suspense. James Stewart numa performance devastadora, como o homem que encontra uma sósia da mulher que perdeu e tenta fazer com que ela se torne absolutamente idêntica à outra. Os dramas e segredos que vêm daí forjaram mais uma obra-prima de Hitchcock. A subida à torre é antológica, mas a cena em que Judy aparece vestida de Madeleine, eles se abraçaram vertiginosamente e o fundo, no quarto, ao som da trilha espetacular de Bernard Hermann, passa a ser o cenário da torre - numa representação psicológica genial do que se passa com o personagem de James Stewart - essa cena é coisa para emoldurar e pendurar na parede.

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