CEM PREFERIDOS - 14


14. Amor, Sublime Amor (Robert Wise e Jerome Robbins, 1961)

Não é todo mundo que passa pelo balé moderno da abertura de Amor, Sublime Amor (West Side Story, no original) sem estranhar. É o momento em que a maioria, acostumada apenas ao feijão-com-arroz do cinema, desiste do filme. Um dos momentos mais ousados já vistos num filme, essa abertura quebra o protocolo dos musicais tradicionais, mesclando a coreografia e a atuação natural dos atores em cenas que não formam exatamente um número musical. Isso se repete mais algumas vezes no filme, junto com números mais tradicionais e tão memoráveis quanto, como o desconcertante "America", em que moços e moças porto-riquenhos expõem as vantagens e desvantagens da imigração para os Estados Unidos. A história é uma versão de Romeu & Julieta transposta para uma guerra de gangues em Nova York - os descendentes de europeus contra os imigrantes latinos. O ex-líder dos Jets, Tony (Richard Beymer), e a irmã caçula do líder dos Sharks, Maria (Natalie Wood), se apaixonam, mas a inimizade entreos grupos prejudica esse amor. A versão tem direito à sua cena do balcão, com a bela "Tonight", mas outros números são tão memoráveis quanto: "Dance at the gym", "Gee, Officer Krupke", "I feel pretty", "Somewhere"... Sempre alternando beleza e vigor, num espetacular cinemascope, incorporando crítica social ao musical, numa quase-ópera de sons, romance e violência.

ENCANTADORAMENTE REAL

Ela estava na minha cama e já tinha tirado a blusa. Já estávamos naquela fase em que não havia mais volta. Tudo corria bem, mas ela produziu sons um pouco altos – o suficiente para acordar minha mãe, no quarto ao lado. Quando percebemos isso, logo ela recolocou a blusa e deitamos lado a lado, fingindo estar dormindo. Com os ohos entreabertos, vi minha mãe a mãe dela nos observando, da porta.

Quando decidimos levantar e enfrentar a situação, a vi passar rápido pela sala, dizendo só um “bom dia”, e se refugiar na varanda – a salvo do constrangimento, pensei. Fui atrás dela, para saber como estava. Me surpreendi: ela estava muito tranqüila e serena. E linda, com seus cabelos loiros, longos e lisos, os olhos pequenos, o rosto suave, mas firme. Simples, e, por isso, ainda mais linda.

E me falou de como merecíamos uma nova chance, depois que a primeira tentativa de namoro não havia dado certo. Eu, mesmo, não lembrava porque tínhamos acabado, depois de passar um ótimo fim de ano juntos, de um ano que eu tambpem não lembrava qual.

Quando acordei, aquela sensação ficou comigo. Levei quase uma hora preocupado: como eu tinha namorado uma garota daquelas e simplesmente não conseguia me lembrar disso? Como eu não conseguia me lembrar do nome dela?! “Sofia” me vinha à mente, mas não tinha certeza nenhuma disso.

Aos poucos, enquanto me preparava para ir ao trabalho, eu fui tendo certeza mesmo é de que aquela garota encantadoramente real não existia.

* Dedicado a Thata. Ela sabe o porquê.

ROCKY & HUDSON PERDEM

Brokeback Mountain Walk the Line

‘Brokeback Mountain’ ganha o Globo de Ouro
O filme de Ang Lee é eleito o melhor filme dramático na premiação da imprensa estrangeira em Hollywood e sai na frente na corrida pelo Oscar deste ano

RENATO FÉLIX

Começam a despontar os favoritos para o Oscar deste ano, com a consagração já esperada de O Segredo de Brokeback Mountain e a surpreedente performance de Johnny & June no Globo de Ouro, segunda à noite. Os filmes foram escolhidos, respectivamente, como os melhores do ano nas categorias “drama” e “comédia ou musical”, na premiação da Associação dos Correspondentes Estrangeiros em Hollywood. Hoje em dia o Globe começa a brilhar com luz própria, mas seu principal interesse, mesmo, ainda é o fato de funcionar como uma prévia do Oscar.

Sendo assim, o filme de Ang Lee confirma-se à frente. O prêmio não foi novidade, já que O Segredo de Brokeback Mountain já tinha ganhado o prêmio do Círculo dos Críticos de Nova York, o mais importante dos Estados Unidos, o que havia se repetido em Boston, Dallas, Los Angeles, San Francisco – além do Leão de Ouro, no Festival em Veneza, em setembro passado. É o filme a ser batido: ganhou como filme/ drama, direção e roteiro no Globo de Ouro.

Sua temática polêmica – a história é sobre dois cowboys que, na solidão das pradarias, acabam se apaixonando um pelo outro – não tem sido um impedimento para o sucesso do filme, embora seja uma típica produção que não almeja mesmo uma grande bilheteria. As premiações de papéis como os de Tom Hanks em Filadélfia (1993) ou Hilary Swank em Meninos Não Choram (1999) certamente abriram caminho num prêmio que já é conhecido por ser menos conservador que o Oscar.

Johnny & June conta a história do cantor country Johnny Cash, contemporâneo de Elvis Presley e Jerry Lee Lewis, e sua paixão por uma garota casada, June Carter. Vencedor como filme, ator e atriz - todos na categoria “comédia ou musical”, o filme credencia seus atores como fortes candidatos ao Oscar.

Reese Whiterspoon, pelo menos, já ganhou vários outros prêmios na temporada e é favorecida pela surpreendente vitória de Felicity Huffman (atriz da série Desperate Housewives) como melhor atriz dramática por Transamerica, no qual ela vive um personagem transexual que descobre ter um filho, já adolescente. Marcada por papéis em comédias românticas como Legalmente Loira e Doce Lar, Reese - que, por sinal, está morena em Johnny & June - começa uma surpreendente afirmação da carreira.

Para Joaquin Phoenix, está mais difícil, já que Philip Seymour Hoffman está ganhando cada vez mais força com seu Capote, com o qual ganhou o Globo de Ouro de ator dramático. Ele venceu, por exemplo, o protagonista de O Segredo de Brokeback Mountain, Heath Ledger, outro favorito até então.

Não deu para Fernando Meirelles como melhor diretor, mas a competição estava mesmo dificílima. O brasileiro concorria com Woody Allen (por Ponto Final), Peter Jackson (King Kong), Steven Spielberg (Munique), Ang Lee (que ganhou com O Segredo de Brokeback Mountain) e George Clooney (revelação do ano com Boa Noite e Boa Sorte).

Mas seu O Jardineiro Fiel não saiu de mãos abanando: Rachel Weisz ganhou o prêmio de atriz coadjuvante (deixando atrizes como Shirley MacLaine, Frances McDormand e a emergente Scarlett Johansson para trás). É uma vitória pessoal para Meirelles, que ousou dispensar Nicole Kidman, que estava interessada no papel, e preferiu a bem menos conhecida Rachel.

Clooney também acabou levando seu prêmio - não o de diretor por Boa Noite e Boa Sorte, mas o de ator coadjuvante, por Syriana, filme do diretor-roteirista Stephen Gaghan (Oscar de melhor roteiro por Traffic, em 2001), que desta vez, cria um painel sobre a indústria de petróleo.

O prêmio para filme de língua não inglesa também é outra demonstração do perfil liberal do Globo de Ouro - ainda mais nos tempos conservadores que os Estados Unidos vivem atualmente, sob o governo Bush. Paradise Now, de Hany Abu-Assad, inscrito como uma produção da Palestina, ganhou com a história de dois amigos de infância recrutados para serem homens-bomba num futuro ataque terrorista.

A “pulverização” dos prêmios entre muitos ganhadores dessa vez não aconteceu e muita gente ficou sem nada. Foi o caso do comentadíssimo Munique, de Spielberg, que estréia aqui no fim do mês, e de Os Produtores, a versão musical de Primavera para Hitler, que não ganhou nem canção original para o qual era o favorito (outro que ficou com O Segredo de Brokeback Mountain). Ou de King Kong, de Peter Jackson, que não levou nem trilha sonora, para o qual era um dos favoritos.

Esse prêmio acabou sendo o único de Memórias de uma Geisha, de Rob Marshall (oscarizado por Chicago, em 2003). A trilha é do veterando John Williams (Tubarão; Guerra nas Estrelas; E.T.) - mas é importante estar atento também às indicações, não apenas ao premiados: a chinesa Zhang Ziyi galgou uma indicação a melhor atriz dramática, a primeira para uma asiática, na história do prêmio. Pode chegar ao Oscar.

Mas tudo é prévia. Ainda faltam os prêmios da Academia Britânica - os Baftas -, que serão dia 19 de fevereiro. Antes, saem as próprias indicações ao Oscar, no dia 31. Aí saberemos quem está mesmo no páreo ou não - inclusive, Spielberg, Peter Jackson e Fernando Meirelles. E se alguém poderá parar Ang Lee e seu Brokeback Moutain.

* Publicado no Jornal da Paraíba, 18 de janeiro de 2006

CEM PREFERIDOS - 15


15. Intriga Internacional (Alfred Hitchcock, 1959)

Os créditos são uma animação de Saul Bass em que linhas vão se cruzando, sob a grande música de Bernard Herrmann. É uma metáfora do que vem pela frente: o publicitário vivido por Cary Grant é confundido com um espião e vai se enredando cada vez mais numa trama que ele nem tem idéia do que seja. A bola de neve vai só aumentando, enquanto ele escapa de uma armadilha após outra. É um Hitchcock um pouco diferente, mas saborosíssimo: com mais aventura que suspense, e mais bom humor que a média de seus filmes - na verdade, o roteiro de Ernest Lehmann produz alguns diálogos hilariantes. Há também um punhado de cenas para qualquer antologia séria de cinema - com destaque, claro, para o herói perseguido por um avião de pulverização num descampado, e para o clímax em que herói e mocinha (Eva Marie Saint) fogem pelos rostos esculpidos do Monte Rushmore com os vilões nos calcanhares. É uma aula de cinema - e daquelas em que você faz questão de ficar em recuperação, só para ver de novo.

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