SEXTA À NOITE...

Um bom fim de semana pra vocês - e pra mim.

ESTRÉIA HOJE + CRÍTICA/ "A MARCHA DOS PINGÜINS"

La Marche de l'Empereur La Marche de l'Empereur

Odisséia no continente gelado
‘A Marcha dos Pingüins’, sucesso em todo o mundo, estréia hoje com uma incrível história estrelada por aves

Renato Félix

Uma aventura da vida real. É assim que pode ser definido A Marcha dos Pingüins (La Marche de l’Empereur, França, 2005), documentário francês de extraordinário sucesso de público que conta a impressionante história da luta do pingüim imperador para, num período bem específico do ano, e num local mais específico ainda da Antártida, acasalar e procriar. Segundo documentário mais visto de todos os tempos nos Estados Unidos e o filme francês de maior bilheteria na história do país. Na esteira de sua indicação para o oscar de melhor documentário, esse extraordinário e inusitado sucesso estréia hoje em João Pessoa - duas salas.

Para registrar o ciclo reprodutor dos pingüins-imperadores, os diretores de fotografia Jérome Maison e Laurent Chalet passaram um ano na estação polar que o governo francês mantém no continente gelado, captando o máximo de imagens possíveis, a -50ºC, segundo a orientação do diretor do filme, o biólogo Luc Jacquet.

Com esse material (1.020 horas de filme rodado), Jacquet deu seguimento à sua grande sacada, certamente a responsável por fazer do filme o sucesso de público que é: transformar o mero documentário numa odisséia, a partir do ponto de vista dos pingüins (!). A maneira usada foi colocar um casal de narradores para fazer as vozes de um pingüim macho e uma fêmea, e mais uma criança “dublando” um filhote. Isso deixou o filme longe da - com o perdão do trocadilho - frieza que o gênero documentário pode ter e adicionou o que o The New York Times chamou de “fator fofura”.

A proeza da produção (que aproveitou e rodou dois documentários enquanto A Marcha dos Pingüins era filmado) é realmente de se admirar e certamente ajudou a transformar o filme num fenômeno. Mas a história também é cativante: os pingüins saem do oceano, atravessam 90 quilômetros com tenacidade até chegar ao santuário onde podem procriar. Depois, ainda têm de fazer a mesma viagem de volta para se alimentar, enquanto os filhotes crescem, e defendê-los de predadores.

Nos Estados Unidos, os distribuidores preferiram trocar as dublagens “humanizadoras” por uma narração à moda antiga, a cargo de Morgan Freeman. Aqui, além da versão francesa com legendas, há uma dublagem brasileira que segue o exemplo da original, com vozes de Antônio Fagundes, Patrícia Pillar e de Matheus Périssé como o filhote. É a versão das duas cópias em cartaz na cidade.

CRÍTICA
Uma fofa luta pela sobrevivência

A Marcha dos Pingüins é mesmo um filme irresistível. Não há como não ficar impressionado com a força das imagens que retratam a imensidão gelada da Antártida, tão vazia e bela quanto ameaçadora. Por isso, a história da odisséia dos pingüins-imperadores é, também, ainda mais impressionante do que já seria, se apenas contada oralmente ou narrada em livro. São seres frágeis, que lutam pela sua sobrevivência como podem num ambiente inóspito e pouco interessado em ajudar.

A decisão de “humanizar” as aves foi polêmica, mas mostrou-se, em termos da narração do filme, acertada. Ao invés dos documentários de mero registro, como os na National Geographic, aqui o espectador divide medos, esforços e alegrias, com os protagonistas. Há mesmo uma identificação entre espectadores e pingüins e já houve mesmo quem falasse em metáfora das ações humanas.

O recurso nem é totalmente novo, já que foi usado no documentário Os Camelos Também Choram (2003), produção da Alemanha e Mongólia., dos diretores Byambasuren Davaa e Luigi Falorni. Mas a diferença crucial aqui é que pingüins são bichinhos evidentemente mais fofos que camelos. Eles deslizam de barriga pelo gelo para ganhar tempo, se protegem em conjunto do frio, caminham em fila com aquele andar desengonçado e até para a fêmea passar o ovo para o macho cuidar, é uma dificuldade.

O principal problema da versão original está nas “falas” dos pingüins, que muitas vezes exageram numa pieguice desnecessária, numa tentativa de escancarar um drama que o espectador já está vendo. Às vezes, parece música de Serge Gainsbourg. Talvez a versão dublada - com Antônio Fagundes e Patrícia Pillar - seja melhor, caso dê uma entonação mais coloquial à jornada das aves.

Falando em música, o documentário tem algumas boas canções de Emilie Simon, “comentando” o desentoar da história. Mas quaisquer prós e contras são só periféricos, frente à extraordinária força das imagens captadas a menos 50º de temperatura e à inacreditável história dos bichinhos que, humanizados ou não, conquistam qualquer um. (RF)

A Marcha dos Pingüins. La Marche de l’Empereur. França, 2005.  ****  Direção: Luc Jacquet. Vozes na dublagem em português: Antônio Fagundes, Patrícia Pillar, Matheus Périssé.

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CRÍTICA/ "MUNIQUE"

Munich Munich

O terror nos olhos dos terroristas

O personagem principal de Munique (Munich, Estados Unidos, 2006) é um agente israelense cuja missão é eliminar um a um os responsáveis palestinos pelo seqüestro e morte de 11 atletas judeus durante a Olimpíada de Munique. Tendo em vista que caso contrário esses terroristas sairiam impunes, essa ação é justificável? Para o governo de Israel, é claro que sim, e Avner (Eric Bana) também não tem dúvidas - pelo menos não no começo do filme. Estaria Steven Spielberg legitimando o olho por olho das bombas e as mortes de inocentes?

O terrorismo é um assunto em que você deve se pronunciar muito claramente contra, sob pena de que o silêncio possa ser entendido como simpatia. Mas Spielberg, que é judeu, sabe que não é tão simples: o mundo pode ser feito de homens claramente bons e maus num filme de Indiana Jones, mas não aqui. Apesar de focado sobre um grupo secreto israelense buscando vingar o país, Munique toma o cuidado de dar voz também aos palestinos, para que se justifiquem - o que acontece numa emblemática conversa informal entre Avner e um terrorista árabe.

Mas não é aí que o filme revela sua postura. Ela vai sendo construída aos poucos, a cada assassinato bem-sucedido pelo grupo de cinco homens. Num momento, Avner diz: "No futuro, eu vou poder acordar, sair, matar e voltar para casa sem sentir nada". É aí que o filme se define.

Mesmo que cada um, cada grupo, cada povo ou cada país, tenha sua justificativa - que é válida para si mesmo - a violência praticada trará sempre mais violência. Avner e seus homens entendem logo que novas explosões e aviões seqüestrados pelo árabes são uma retaliação às suas ações e que não vai demorar para que o sangue respingue neles mesmos.

Spielberg trata os personagens, de ambos os lados, como profissionais e patriotas - eles têm um dever a cumprir e o cumprem. Mas é possível sentir a raiva por um companheiro morto ou o medo antes de alguma missão. A seqüência do atentado em Munique, mostrada através de notícias de TV no início e dividida em flashbacks no decorrer do filme, como pesadelos de Avner mostra o terror nítido no rosto dos terroristas.

Steven Spielberg fez um dos filmes mais pacifistas dos últimos tempos. Não deixa, assim, de levar uma certa alma spielberguiana, mas é seu filme mais cético, mais desencantado. Repare na cena final, mostrando Nova York ao fundo - e as Torres Gêmeas lá. Nada mais eloqüente.

Munique. Munich. Estados Unidos, 2005.  ****  Direção: Steven Spielberg. Elenco: Eric Bana, Daniel Craig, Ciarán Hinds, Mathieu Kassovitz, Hanns Zischler, Ayelet Zorer, Geoffrey Rush, Gila Almagor, Michael Lonsdale.

CRÍTICA/ "A PASSAGEM"

 

Estiloso, mas vazio

Uma coisa que se pode dizer sobre o diretor Marc Foster é que ele é (ou tenta ser) versátil. Depois do contundente A Última Ceia (2002) e do encantador Em Busca da Terra do Nunca (2004), ele surge com um drama existencial, que é este A Passagem (Stay, Estados Unidos, 2005). Só que, desta vez, ele não se saiu tão bem quanto nas anteriores.

O filme procura desde cedo mostrar que tem um “estilo”, com passagens de cena espertas e uma história indecisa entre o drama psicológico e a metafísica: um psiquiatra (Ewan McGregor) tenta impedir um estudante (Ryan Gosling) de cometer suicídio, enquanto o jovem faz previsões estranhas.

O clima de estranheza persiste durante todo o filme, mas tudo vai fi cando cada vez mais confuso. Cada vez mais envolvido, o psiquiatra vai também perdendo um pouco da sua sanidade.

O filme tem uma pegadinha no final que explica tudo e, naturalmente, convém não contar (embora o título já estrague). Mas se pode adiantar que não satisfaz e, no final, parece que tudo não passou de um exercício de estilo meio vazio. A atenção é mantida graças ao elenco interessante - que inclui ainda a sempre bela Naomi Watts e Janeane Garofalo (de Feito Cães e Gatos, 1996), mas num papel muito aquém das suas possibilidades.

A Passagem. Stay. Estados Unidos, 2005.  **  Direção: Marc Foster. Elenco: Ewan McGregor, Ryan Gosling, Kate Burton, Naomi Watts, Elizabeth Reaser, Bob Hoskins, Janeane Garofalo.

*Publicado no Jornal da Paraíba, em 31 de janeiro de 2005

AND THE OSCAR GOES TO...

    

Rumo ao Oscar
‘Brokeback Mountain’ lidera as indicações
Western polêmico do chinês Ang Lee concorre em oito categorias ao prêmio da Academia e continua favorito ao prêmio mais famoso do mundo do cinema

Renato Félix

O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee, confirmou o favoritismo e não só está na lista dos indicados ao Oscar de melhor filme - anunciada ontem pela manhã, em Los Angeles – como foi o filme que concorre em mais categorias: oito. Os outros indicados a melhor filme são: Boa Noite e Boa Sorte, de George Clooney (seis indicações); Capote, de Bennett Miller (cinco); Crash - No Limite, de Paul Haggis (seis); e Munique, de Steven Spielberg (cinco). O Jardineiro Fiel ficou de fora dessa lista e a de melhor diretor, mas o filme de Fernando Meirelles concorre em quatro categorias - incluindo atriz coadjuvante, onde Rachel Weisz é a favorita. Dois Filhos de Francisco - A História de Zezé Di Camargo & Luciano também ficou de fora, na categoria filme de língua não inglesa. A cerimônia será para o dia 5 de março, no Kodak Theather, em Los Angeles.

Todos os diretores dos filmes indicados ao prêmio principal também estão indicados na categoria de direção. Deles – quem diria? -, Spielberg é o veterano: é sua sexta indicação na categoria, onde já venceu duas vezes (por A Lista de Schindler, 1993, e O Resgate do Soldado Ryan, 1999). Clooney, Higgis e Miller concorrem pela primeira vez, todos em seus segundos filmes. Ang Lee está na segunda indicação.

Entre os atores principais, uma legião de estreantes no prêmio, com exceção de Joaquin Phoenix, 31 anos, que já concorreu como coadjuvante em 2000, por Gladiador. Entre os coadjuvantes, o veterano é William Hurt, na quarta indicação – as três anteriores foram para ator principal (ganhou por O Beijo da Mulher-Aranha, 1987), mas a última foi no distante 1988.

Entre as atrizes, a dama Judi Dench comparece com Sra. Henderson Apresenta, sua quinta indicação em oito anos (ganhou como coadjuvante por Shakespeare Apaixonado, 1998). A categoria tem outra vencedora, Charlize Theron (melhor atriz por Monster - Desejo Assassino, em 2003), e entre as coadjuvantes, Frances McDormand (quarta indicação, melhor atriz por Fargo, em 1997).

Mas o prêmio deste ano desenha-se como um Oscar de estreantes. Dando a lógica, todos os vencedores ganharão pela primeira vez: Ang Lee, Philip Seymour Hoffman, Reese Whiterspoon, George Clooney ou Paul Giamatti e Rachel Weisz. Façam suas apostas.

Principais indicações

FILME
O Segredo de Brokeback Mountain; Capote; Crash – No Limite; Boa Noite e Boa Sorte; Munique

DIREÇÃO
Ang Lee (O Segredo de Brokeback Mountain); Bennett Miller (Capote); Paul Haggis (Crash - No Limite); George Clooney (Boa Noite e Boa Sorte); Steven Spielberg (Munique)

ATOR
Phillip Seymour Hoffman (Capote); Terrence Howard (Hustle & Flow); Heath Ledger (O Segredo de Brokeback Mountain); Joaquin Phoenix (Johnny & June); David Strathairn (Boa Noite e Boa Sorte)

ATRIZ
Judi Dench (Sra. Henderson Apresenta); Felicity Huffman (Transamerica); Keira Knightley (Orgulho e Preconceito); Charlize Theron (North Country); Reese Whiterspoon (Johnny & June)

ATOR COADJUVANTE
George Clooney (Syriana); Matt Dillon (Crash - No Limite); Paul Giamatti (A Luta pela Esperança); Jake Gyllenhall (O Segredo de Brokeback Mountain); William Hurt (Marcas da Violência)

ATRIZ COADJUVANTE
Amy Adams (Junebug); Catherine Keener (Capote); Frances McDormand (North Country); Rachel Weisz (O Jardineiro Fiel); Michelle Williams (O Segredo de Brokeback Mountain)

*Matéria publicada no Jornal da Paraíba, em 1º/2/2006.
*Lista completa em no site da Academia.

"TELEVISÃO GRANDE"

Quando entramos, a sala já estava escura. Ela, assustadinha, sentou na cadeira ao meu lado e ficou segurando minha mão por uns 20, 30 minutos, até se acostumar. Medo daquela "televisão grande", como eu disse pra ela que seria e ela lembrou de perguntar já lá dentro: "É como uma televisão grande, é, tio?". Ofereceu (acho que de brincadeira) pipoca para os atores, disse que teve medo da tia velha, e que o pai das crianças não podia casar com a moça feia. Algumas vezes tive que pedir para falar baixinho, mas ela se comportou. No fim, já estava assistindo deitadinha na poltrona.

Esse momento foi cuidadosamente escolhido: a primeira ida ao cinema da Bebel. Nada de Xuxas ou os Didis decadentes (antigamente até podia ser). Desenho, só se for memorável (O Galinho Chicken Little não está à altura). Tinha que ser algo para, no futuro, eu dizer com orgulho: "Olha, esse foi o primeiro filme que você viu no cinema". Bem, aconteceu e foi sábado: Nanny McPhee, a Babá Encantada. Vou poder dizer: seu primeiro filme foi com Emma Thompson.

CEM PREFERIDOS - 12


12. Rastros de Ódio (John Ford, 1956)

John Ford é considerado o Homero do cinema - naturalmente, não por acaso. Ele criou verdadeiras odisséias em que heróis - solitários ou não - buscavam incansavelmente cumprir seu objetivo. Nenhum foi mais incansável que Ethan Edwards, magistral personagem de John Wayne: pouco depois de chegar de um guerra perdida, índios matam sua família e seqüestram sua sobrinha. Junto com o sobrinho adotivo e mestiço, para quem não tem constrangimento em mostrar seu preconceito, ele passa anos em busca da tribo que raptou a pequena Debbie (Natalie Wood). É uma busca inglória e não se sabe o que ele fará se, quando a encontrar, ela estiver vivendo como eles. Os peles-vermelhas ainda são os "inimigos", mas esta é uma das primeiras vezes em que os vemos se justificando e colocando o homem branco claramente como o invasor. Ethan é obcecado, violento e com um senso de dever para com a família além do possível - um personagem dos maiores que já surgiram numa tela de cinema, em qualquer lista. A busca se dá em uma paisagem típica de Ford - o deslumbrante Monument Valley - e é temperado com doses do melhor humor, com direito a um revival da lendária briga de Depois do Vendaval (1952). Mas o que marca mesmo é a cena inicial e final: Ethan do lado de fora da casa, emoldurado pela porta, mas sem entrar. Sempre um errante.

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