ESTRÉIA HOJE EM JP/ O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN
Brokeback Mountain Brokeback Mountain 

A polêmica como favorita ao Oscar
O Segredo de Brokeback Mountain estréia hoje em JP, trazendo no currículo uma série de prêmios internacionais e a dianteira na corrida pela estatueta

Renato Félix

A polêmica acompanha O Segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain, Estados Unidos, 2005) desde o início. Nem tanto por ser um filme direto e claro sobre um romance homossexual, mas principalmente por colocar isso num contexto quase sagrado ao cinema americano: o western. O filme de Ang Lee estréia hoje – duas salas em João Pessoa – nove dias antes do que deve ser a sua consagração final: a cerimônia do Oscar, em Los Angeles.

O filme está indicado em oito categorias: filme, direção (Lee), ator (Heath Ledger), ator coadjuvante (Jake Gyllenhall), atriz coadjuvante (Michelle Williams), roteiro adaptado, fotografia e trilha sonora original. É favoritíssimo para melhor filme, ganhando tudo o que há para ganhar na temporada pré-Oscar – incluindo o Globo de Ouro/drama, o prêmio do Círculo dos Críticos de Nova York e, até onde não era o favorito, no Bafta (da Academia Britânica). O que leva a crer que não é só a polêmica que tem sido a mola propulsora da notoriedade do filme.

Brokeback Mountain mostra dois pastores de ovelhas isolados do mundo nas montanhas do Wyoming, que acabam se apaixonando e passam os anos seguintes em idas e vindas tentando escapar desse sentimento que não compreendem. O filme começa em 1963 e, talvez por isso, nem se pode dizer que é exatamente um western. Mas a semelhança já foi o suficiente para fazer barulho e até para que surgissem teses defendendo que o subtexto homossexual no gênero sempre existiu.

O tema não é novidade para Ang Lee. Um de seus primeiros filmes de repercussão internacional, quando ainda filmava em Taiwan, foi O Banquete de Casamento, história de um chinês que mora nos Estados Unidos com um americano e tem de encontrar uma noiva de encomenda para esconder seu romance gay dos pais, que estão chegando para visitá-lo. É uma comédia, sem ridicularizar os homossexuais.

E é um ótimo filme, comentário que O Segredo de Brokeback Mountain também tem recebido. Depois do problemático Hulk (que não é um filme nada ruim, diga-se), ele voltou-se para um projeto pra lá de intimista e pode ser o primeiro oriental a levantar o Oscar de melhor direção. Os atores também estão bem cotados, embora não sejam os favoritos. E isso para um filme que estreou timidamente, em meras 70 salas, pulando em um mês para 600, e chegando a 1.966 salas na semana passada, dois meses depois da estréia.

O sucesso de público e no Oscar pode estar sinalizando uma tolerância maior em Hollywood para temas polêmicos como esse? Alguém já disse que Hollywood não discrimanava os homossexuais – ao contrário, os tratava muito bem, na intimidade. Mas o público discriminava e a indústria não era boba de ir contra o público. Como será depois da ascensão de uma história gay ao posto de melhor filme do ano?

O Segredo de Brokeback MountainBrokeback Mountain. Estados Unidos, 2005. Direção: Ang Lee. Elenco: Heath Ledger, Jake Gyllenhaal, Randy Quaid, Anne Hathaway, Michelle Williams, Anna Faris, Linda Cardellini.

*Publicado hoje, no Jornal da Paraíba

ESTRÉIA HOJE EM JP/ MEMÓRIAS DE UMA GUEIXA
Memoirs of a Geisha Memoirs of a Geisha 

Beleza visual dá o tom em história japonesa
Memórias de uma Gueixa, indicado a seis Oscars, estreía hoje em João Pessoa, com figurino e cenários requintados, mas a crpitica achou que faltou conteúdo

Renato Félix

Memórias de uma Gueixa (Memoirs of a Geisha, Estados Unidos, 2005), que estréia hoje - duas salas em João Pessoa - é uma vítima da já clássica falta de visão dos americanos sobre o mundo que começa além de suas fronteiras: mexeu em um vespeiro daqueles ao escalar atrizes chinesas para viver símbolos da cultura japonesa e praticamente causou um incidente diplomático.

Chineses e japoneses têm sérias rusgas desde os anos 1930, por causa das atrocidades cometidas pelos japoneses enquanto o país ocupou a China. Seriam as gueixas prostitutas? Para os chineses, sim, e isso explicaria o sentimento de ofensa por ver chinesas no papel. Por outro lado, fora o sentimento de não ter atrizes nacionais escolhidas para o papel, os japoneses acusam Memórias de uma Gueixa de dar uma visão americanizada demais das tradições nipônicas, amenizando-as.

Sob o tiroteio, a crítica acusou o filme de ter muita forma e pouco conteúdo. O Oscar parece ter concordado: o filme concorre a seis estatuetas, mas nenhuma das principais, ficando relegada aos prêmios técnicos. Concorre em fotografia, trilha sonora original, direção de arte, som e edição de som.

A história é baseada no livro de Arthur Golden, que através de viagens e estudos, escreveu um romance com relatos também históricos sobre a cultura nipônica. A trama segue a vida de uma menina japonesa que - mistérios da genética - nasceu com olhos azuis. Os pais a vendem para que se torne uma gueixa - e aí começa o calvário de Chiyo. Sua beleza causa a inveja da gueixa mais poderosa do local, Hatsumomo (a chinesa Gong Li) e acaba virando serviçal. Só quando Chiyo é acolhida pela maior rival de Hatsumomo, Mameha (a tailandesa Michelle Yeoh), ela é treinada e vira Sayuri (Zhang Ziyi), que se tornou uma conhecida cortesã do Japão pré-Segunda Guerra.

O diretor é Rob Marshall, que fez um trabalho muito bom no musical Chicago (2003), com o qual ganhou os Oscars de filme e direção. A ambição, aqui, segundo as críticas, esbarrou numa preocupação muito grande com o visual e pouco com a história em si. Marshall também se esmerou em ter atores orientais no elenco, para dar veracidade ao filme, o que foi uma atitude corajosa. Mas cometeu esse erro de cálculo ao procurar garantir o interesse com aqueles nomes que já são conhecidos no Ocidente.

Zhang Ziyi já é figurinha carimbada em filmes chineses que fazem sucesso aqui (de O Tigre e o Dragão, 2000, aos filmes recentes de Zhang Yimou, como O Clã das Adagas Voadoras, 2004). Michelle Yeoh também esteve em O Tigre e o Dragão e, antes, foi bondgirl em 007 - O Amanhã Nunca Morre (1997). Gong Li é uma das atrizes chinesas mais celebradas desde Lanternas Vermelhas (1991).

Há um ator japonês com destaque no elenco, mas porque também já é conhecido por esse lado do mundo: Ken Watanabe, que foi indicado ao Oscar por O Último Samurai (2003) e esteve também em Batman Begins (2005). Uma área de escape que, no fim, resultou em mais problemas que soluções - mas parece que não são os únicos do filme.

Memórias de uma GueixaMemoirs of a Geisha. Estados Unidos, 2005. Direção: Rob Marshall. Elenco: Zhang Ziyi, Ken Watanabe, Kôji Yakusho, Michelle Yeoh, Kaori Momoi, Gong Li, Kenneth Tsang.

*Publicado hoje, no Jornal da Paraíba

ESTRÉIA HOJE EM JP/ CRASH - NO LIMITE
Crash Crash 

‘Crash’ traça painel sobre Los Angeles

Renato Félix

Existem aqueles filmes que são grandes painéis: várias histórias praticamente independentes, mas interligadas por detalhes às vezes importantes, às vezes banais. Através disso, o filme tenta montar uma grande cena de uma sociedade localizada. Assim é Short Cuts - Cenas da Vida (1993), de Robert Altman, assim é Magnólia (1999), de Paul Thomas Anderson, assim é Traffic (2000), de Steven Soderbergh. E assim é Crash - No Limite (Crash, Estados Unidos/ Alemanha, 2004), de Paul Haggis, que estréia hoje em João Pessoa - uma sala.

Haggis é o roteirista indicado ao Oscar por Menina de Ouro (2004), mas que fez carreira mesmo na televisão - principalmente com roteiro e direção em episódios do seriado Family Law. Crash é seu filme de estréia e já bastante ambicioso: o painel traçado é sobre os conflitos inter-raciais e interculturais na Los Angeles dos dias de hoje. O filme está indicado a seis Oscars: filme, direção, ator coadjuvante (Matt Dillon), roteiro original, montagem e canção original (“In the deep”).

Dillon recebe sua primeira indicação pelo papel de um policial corrupto e racista. Ele cruza com outros como um promotor público e sua esposa, um lojista persa, um casal de detetives da polícia, ladrões de carro, um casal coreano de meia-idade... E a história se passa em dois dias, onde as tramas se cruzarão.

O elenco tem vários nomes conhecidos, sem grande protagonismo para nenhum, o que uma característica dos painéis. Estão lá desde astros sumidos, como Sandra Bullock e Brendan Fraser (é ele mesmo, que estrelou filmes como De Volta para o Presente), até queridinhos do cinema independente, como Don Cheadle (figurinha fácil nos filmes de Steven Soderbergh e indicado ao Oscar por Hotel Ruanda), chegando a atores que ainda buscam lugar ao sol, como Jennifer Esposito (que está nesse pé, depois de filmes B e do fiasco de Táxi). Não deixa de ser, também, um painel.

Crash - No Limite. Crash. Estados Unidos/ Alemanha, 2004. Direção: Paul Haggis. Elenco: Sanda Bullock, Don Cheadle, Matt Dillon, Jennifer Esposito, William Fichtner, Brendan Fraser, Thandie Newton, Ryan Phillippe.

*Publicado hoje, no Jornal da Paraíba

CRÍTICA/ OLIVER TWIST

Oliver Twist Oliver Twist

Roman Polanski faz filme-tributo ao escritor inglês Charles Dickens

Renato Félix

A principal marca do cineasta Roman Polanski é não ter exatamente uma “marca”. Seus filmes são tão diferentes uns dos outros que é difícil reconhecer os elementos de um “autor”, como gostam os franceses, em sua obra. A não ser, é claro, a exímia capacidade de narrar bem uma história, qualquer que seja ela. Pode ser uma história de piratas, um filme de suspense/horror claustrofóbico, um drama político ou um conto dickensiano como o Oliver Twist (Oliver Twist, Inglaterra/República Checa/ rança/Itália, 2005) que segue em cartaz esta semana.

A história do órfão que acaba acolhido por um grupo de ladrões de rua, chefiados por um velhote ganancioso chamado Fagin, é contada com uma servidão admirável à história de Charles Dickens. Não há vôos narrativos em excesso, movimentos de câmara ousados, grandes cenas para tirar o fôlego. Há a história, embalada em uma reconstituição de época cuidadosa, suportada por bons atores mirins e por um grande ator: Ben Kingsley, quase irreconhecível como Fagin.

O sofrimento infantil em Dickens não é eufemismo. Só como comparação, Harry Potter, no máximo, levava umas broncas dos tios e dormia num quartinho embaixo da escada. Oliver Twist comia restos num orfanato, apanhava, foi vendido como um objeto qualquer, trancado num depósito de carvão... E isso é só o começo.

A história também difere muito das aventuras infanto-juvenis da atualidade, porque a criança não tem o controle das ações - ela está sempre à mercê dos adultos, maiores e mais fortes, numa sociedade em que a opressão adulto-criança e homem-mulher quase não tinha alternativa. Polanski mostrou coragem ao não sucumbir à receita atual e transformar Oliver no herói que resolve seus próprios problemas. O garoto é, sobretudo, uma vítima, procurando um lugar mínimo que seja ao sol.

Nisso, o diretor não esconde a ternura pelo personagem, que passa por provações e mais provações físicas e morais até chegar ao momento decisivo do filme, em que seu destino será decidido de vez.

Surpreendentemente, tenta inspirar compaixão também por Fagin, vilão por excelência, mas com nuances garimpadas por Kingsley na busca por torná-lo mais humano. Não é fácil, afinal trata-se de um aproveitador que põe crianças no mundo do crime. Mas chega perto.

Oliver Twist. Oliver Twist. Inglaterra/ República Tcheca/ França/ Itália, 2005.  ****  Direção: Roman Polanski. Elenco: Barney Clark, Ben Kingsley, Leanne Rowe, Mark Strong, Jamie Foreman.

*Publicado hoje, no Jornal da Paraíba

CEM PREFERIDOS - 7


7. Quanto Mais Quente Melhor (Billy Wilder, 1959)

Ninguém é perfeito. Marilyn Monroe não é perfeita. Jack Lemmon não é perfeito. Tony Curtis não é perfeito. Billy Wilder não é perfeito. Mas eles, juntos, fizeram um filme perfeito: Quanto Mais Quente Melhor, a genial comédia sobre gângsters, mentiras e travestismo. O roteiro não tem preço: Curtis e Lemmon são Joe e Jerry, músicos pés-rapados que flagram uma execução da máfia; para fugir, se vestem de mulheres (Josephine e Geraldine - pu melhor, Daphne) e integram uma banda feminina que está seguindo rumo à Flórida; como nada nessa vida é fácil, também integra a banda a escultural Sugar Kane (Marilyn Monroe). Ela vai tentá-los a fazer o impossível: conquistá-la, mesmo sob disfarce. Mas Daphne também atrai as atenções de um velho rico - e incansável na paquera. Os quiproquós vão aumentando cada vez mais, numa sucessão de grandes piadas, grandes cenas e grandes performances de todos os atores. Curtis e Lemmon fazem às vezes de Dean Martin-Jerry Lewis, só que mais cerebrais. E Marilyn... Bem, Marilyn foi definida com perfeição por Wilder: trabalhar com ela era um inferno, porque ela se atrasava, não decorava as falas, tinha que repetir as cenas... Mas valia a pena, porque quando a imagem era projetada, é a luz que se vê cada vez que ela surge em Quanto Mais Quente Melhor.

CEM PREFERIDOS - 8


8. A Noviça Rebelde (Robert Wise, 1965)

Dizer que a música pode mudar a vida das pessoas talvez seja muito otimismo. Mas a verdade é que foi através dela que a família Von Trapp conseguiu fugir do nazismo, quando os alemães anexaram a Áustria: eles montaram um grupo musical, e a história é real. Logo, se a própria vida pode ter esses lances de otimismo explícito, por que não um filme? A Noviça Rebelde é muito ancorado no carisma impressionante de Julie Andrews, mas tem muito mais do que isso. A fotografia é esplêndida, não só por causa das cores vivas das locações em Salzburg, mas pelos enquadramentos detalhistas, simétricos, quase uma pintura em cada fotograma, num trabalho simplesmente perfeito do diretor Robert Wise. A história é um encanto, com a noviça hiperativa que é enviada para cuidar dos sete filhos traquinas de um capitão reformado da marinha - que os trata como se fossem a tripulação de seu navio. Ela chega e revoluciona a rotina da casa. As canções, então, impecáveis: "The sound of music", "I have confidence in me", "Sixteen goin on seventeen", "My favorite things", "Do-re-mi", "Something good"... Para guardar no coração.

RETOMADA
Vamos lá, terminar essa lista de cem preferidos?
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